JOELMIR BETING
''Não vamos ficar chorando o dinheiro que a gente não tem. Vamos é caprichar no uso adequado do pouco que temos.''
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
Selic, Saddam & cia.
Capricho do calendário: o governo brasileiro decide se mexe ou não mexe na panacéia antiinflação da taxa básica de juros precisamente no dia em que a águia americana, com aviso prévio de 48 horas, decide dar uma bushada chipada nas torres, nas pontes, nos muros e nos palácios de Bagdá. Com sobras de devastação high tech também para as usinas e as cavernas pra lá de Bagdá.
O que tem a ver a guerra com data marcada na casa dos outros com a recalibragem da nossa poderosa Selic no ''bunker'' da ortodoxia monetarista do Banco Central? Simples: a eclosão da guerra de um tiro só pode detonar nova alta do petróleo sem bandeira, novo sumiço do crédito sem remorso e nova recarga do câmbio sem juízo.
País dos coitadinhos, o Brasil se autoproclama extremamente vulnerável ao tal de ''cenário externo'', como se já não bastassem nossas velhas estripulias aqui no remanso interno. A remoção cirúrgica de Saddam, estranhamente poupado em 1991, tende a produzir novas ondas de ''aversão ao risco'' nas hostes do capital volátil movido a risco.
Como é sabido, o Brasil insiste em emitir miados sofridos no saco de gatos do subplaneta dos emergentes, com seu estúpido Embi+ do JP Morgan ainda cotado acima de mil. A bola da vez, nesta primeira Quaresma do governo Lula, é apontar as trapalhadas de seu ainda desajeitado primeiro escalão - que não conseguiu, em 77 dias de gestão, com 77% de suporte popular, apresentar qualquer projeto ou programa em arte final.
Quer dizer: o risco maior que ronda a reversão da reversão das expectativas dos agentes econômicos aqui dentro e dos investidores de olho de vidro lá fora não está no ''estado de guerra'' alheio, de resto já preventivamente ''precificado'' em todos os ativos. O risco maior está na percepção, aqui e ali já esboçada, de que o governo da mudança estaria embarcando no viés do imobilismo ou da impotência no ''front'' da reforma previdenciária, da reforma trabalhista, da reforma tributária, da reforma financeira, da reforma agrária...
Só faltava a uma certa mídia coisa-preta dar tratos a uma bola furada, a da existência cavernosa de um tal de Plano B na churrasqueira da Granja do Torto. E o que dizer da estratégia enviesada de resgate da ''confiança externa'' do famigerado capital volátil, dito ''mercado''?
De um lado, amplia-se o arrocho monetário do setor produtivo mais arrochado do mundo. De outro, adota-se o discurso escapista da chamada ''herança maldita''. Você botaria dinheiro novo num país que se confessa subjugado por alguma ''herança maldita''? Sim? Mas a que prêmio adicional de risco?
Do meu canto, não estou me lixando nesta quarta-feira nobre com Bush nem com Saddam. Eles se merecem. Estou angustiado, mesmo, é com a Selic e com o Embi+.
Secos & Molhados
Status quo - O setor financeiro continua jogando todas as fichas na manutenção do ''status quo'' nesta travessia de 2003. A reprise dos tristes patamares de 2002 não incomoda o setor. Ano passado, os bancos obtiveram, com eles, em média, um retorno de 25,4% sobre o patrimônio líquido. Mudar pra quê?
Acostamento - Vai daí que os bancos estão projetando para a ponta de 2003, em reavaliação concluída sexta-feira, PIB de 2%, IPCA de 12,4%, IGP de 15,1%, Selic de 22% e dólar a R$ 3,61. Replay do ''ano perdido'' de 2002.
Chateação - Sai o Efeito Lula, entra o Efeito guerra. Que guerra? Um piparote por controle remoto no trono do Saddam da vez. Derruba-se o palácio e tome 90 dias e 90 noites de suspense mediático: o homem tá vivo ou tá morto? Ah! Saddam teria se encontrado com Bin Laden no Iêmen do Sul - informará a televisão do Catar ali pela altura de 1.º de abril.
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