JOELMIR BETING
''Nos palácios aninham-se as víboras das intrigas e maledicências. Coisa sem graça um governo ciumento fechado sobre si mesmo.'' Dom Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias (RJ)
Come zero
Integrante do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, o bispo dom Mauro Morelli detona as trapalhadas do governo Lula no parto de montanha do Fome Zero. O próprio partido do presidente botou mais água fria no caldo ralo ao inventar, no sábado, uma certa Secretaria Extraordinária para Acompanhamento do Programa Fome Zero. Secretaria do partido e não do governo.
Dom Mauro Morelli poupa o ministro José Graziano, convertido em boi de piranha da ainda desajeitada burocracia palaciana: ''O pobre ministro do combate à fome foi empurrado pelos seus assessores mais diretos para o descaminho que o programa percorreu até aqui. Ele foi induzido a propor a criação de um ministério que não foi criado nem deveria ter sido. Deram-lhe a título de ministério apenas um gabinete, um balcão e um conselho sem a menor autonomia.''
Para o prelado católico, que milita há dez anos na pregação do direito humano ao alimento (de resto, um direito animal), o Fome Zero nasceu torto e rarefeito - malgrado todo o capital político de projeto pessoal número um do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Bem, já que nos gabinetes ninguém sabe ainda como se faz a coisa certa, dom Mauro Morelli diz que se deve aproveitar desta lição de como se faz a coisa errada para recomeçar o Fome Zero do marco zero: ''Sugiro que se retome a proposta original. Que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar tenha autonomia para conduzir amplo diálogo que culmine numa conferência nacional de segurança alimentar sustentável.''
Nessa conferência, segundo ele, é que seriam definidas metas e meios para um Fome Zero duradouro, com participação orquestrada do voluntariado brasileiro. Dom Mauro Morelli propõe uma Secretaria de Segurança Alimentar de fato, vacinada contra os estorvos de uma burocracia pegajosa, ciumenta e fofoqueira.
A proposta de dom Mauro Morelli, se levada ao pé da letra e ao pó da verba, remete a instauração do Fome Zero para o segundo semestre. Ocorre que o presidente Lula repete que o faminto não pode esperar. De fato, para quem passa fome, já em estado de desnutrição continuada, o futuro é hoje. Para as crianças, em especial, amanhã pode ser tarde demais.
Ora, se assim é, por que continuar fazendo da redenção Fome Zero, até prova em contrário, um trapalhão Come Zero?
O problema é que o governo Lula não conseguiu sequer definir o conteúdo, o formato e o recurso do Fome Zero - sobre o qual desfila plenos poderes. Isso ocorre exatamente quando o mesmo governo, instigado pelo partido, executa um bombardeio pra lá de Bagdá contra a ''excessiva autonomia'' das agências reguladoras - que na dialética petista estariam ''terceirizando'' a autoridade de governo no Brasil.
Secos & Molhados
Tolerância zero - Única certeza: o presidente Lula não pensa em pagar tributo pessoal ao atual desgaste político da falta de apetite do Fome Zero. Ele dispensa explicações sobre as causas da ''dissonância cognitiva'' que faz borrar seu cartão de visita para o Brasil e para o mundo.
Agilidade dez - Para agilizar o que ainda não leva jeito de ser agilizado, o governo reduz o gás da Secretaria de Segurança Alimentar, fragiliza ainda mais o ministro José Graziano e escala frei Beto e Oded Grajew para refazer a feijoada do Fome Zero nos fogões da sociedade já ressabiada. O primeiro, com as organizações sociais. O segundo, com as entidades empresariais.
Triste sina - No mais, a triste sina da burocracia brasileira de padrão ibérico. Com qualquer governo, em qualquer situação, ela teima em fazer de cada solução um problema. Com efeito líquido perverso: a atividade-meio mata de fome e de sede a atividade-fim.
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