JOELMIR BETING
''Reuniões são indispensáveis quando não se pretende decidir coisa alguma.'' John Kenneth Galbraith, economista canadense
Desconversa ensaiada
Desgraçadamente sombrias são as nossas expectativas. É assim que o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, projeta a atual carpintaria diplomática de um novo estatuto global para o intercâmbio de produtos e de serviços entre os 127 países que integram a Organização Mundial do Comércio (OMC).
A costura desse tratado multilateral de comércio, que já foi rotulado de Rodada do Milênio, negou a linha na Conferência de Seattle, em 1999, rasgou o pano na Conferência de Doha, em 2002, e perdeu a agulha na reunião ministerial de Tóquio, no mês passado. A agulha sumiu no palheiro dessa Babel da globalização.
Por uma simples e boa razão: Estados Unidos e União Européia, com rebarbas para o Japão, não falam a mesma língua e não remam na mesma direção. E quando essa Tríade, dona de três quartos do mercado global, torce o nariz para qualquer coisa, o restante do mundo nada mais faz que ranger os dentes na fila do gargarejo.
Entre outras colisões no eixo da opulência capitalista, a ruidosa discórdia sobre o formato, o conteúdo e o relógio da abertura das fronteiras agrícolas de americanos, europeus e japoneses. Mercados ainda hoje blindados por incentivos, subsídios e artifícios diversos da ordem de US$ 1 bilhão por dia!
O representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, resume essa encrenca que já dura três décadas: os americanos só vão baixar a guarda do protecionismo agrícola quando os europeus fizerem a mesma coisa. O representante comercial da União Européia, Pascal Lamy, devolve a bola quadrada: os europeus só vão encarar esse repto quando os americanos se anteciparem a ele.
O Brasil pede um aparte nessa desconversa de surdos. Enquanto o ministro Roberto Rodrigues deplora o impasse na OMC, o chanceler Celso Amorim detona: sem uma perspectiva de acordo global para a agenda agrícola até 2005, não temos como negociar a Alca para 2006. Nem como avançar no acordo Mercosul-União Européia.
O discurso europeu carrega no sotaque colonialista: abertura só para os 48 países mais pobres do mundo. Os demais devem aguardar o parto de montanha da OMC. Onde a União Européia acaba de depositar a proposta de uma redução global de apenas 15% de confiscos tarifários que chegam hoje a 260% nos portos europeus, a 340% nos portos americanos ou a 630% nos portos japoneses. Sem contar a fixação de cotas por valor e/ou por volume. E o que dizer dos subsídios oblíquos para a produção interna de uma fartura sem mercado no planeta da fome?
Só faltava pagar aos produtores para não produzir no rodapé de tamanho encalhe... Incluído o do queijo roquefort de José Bové. Pois não falta mais nada. Essa prática permanece de ''stand by'', tanto na Política Agrícola Comum (PAC) dos europeus como na nova Farm Bill dos americanos.
Na agropecuária brasileira a céu aberto, dá para competir com o Tesouro Nacional da União Européia ou dos Estados Unidos?
Secos & Molhados
Estratégia - Para o professor Marcos Sawaya Jank, da Esalq/USP, ao oficializar a carteirinha de ''mais pobre'' para livre acesso ao mercado europeu, a União Européia institui a categoria de ''sócio honorário não-contribuinte''. Com essa estratégia, diz Jank, os europeus compram 48 votos do plenário da OMC e tornam ainda menos competitivas as exportações dos países barrados no baile.
Sobremesa - Marcos Sawaya Jank acrescenta: ao confiscar os parceiros remediados para, com apenas uma fração do confisco, isentar os parceiros pobres, o neocolonialismo europeu faz caridade descarada com o bolso dos outros.
Empurrômetro - O acordo global joga com 2005, mas a política agrícola européia, a da PAC, é intocável até 2007. Até lá, o bloco dos 15 será ampliado para 25. Então, eles dirão que só o protecionismo poderá viabilizar a economia rural de baixa eficiência dos futuros parceiros do Leste Europeu. Fácil.
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