JOELMIR BETING
''No Brasil, até canarinhos desafinam. Ou pior: até submarinos naufragam.'' João Gilberto, autor de Desafinado
Mancha de óleo
Descobrir petróleo no Brasil equivale a um autêntico parto de montanha. A estóica Petrobrás, que não tem máquinas e homens em quantidade suficiente para prospectar esta nossa terceira maior bacia sedimentar do mundo sob uma só bandeira, teve de apurar tecnologias sem paralelo para encontrar e explorar petróleo e gás natural sob águas profundas em plataformas ''offshore''.
Com o detalhe caprichoso: na maioria das ocorrências, óleo pesado de segunda linha, começando pelos maiores achados na Bacia de Campos, endereço de 82% da atual oferta nacional.
Eis que, de repente, as sondas da Petrobras batem em óleo leve de primeira qualidade, de padrão árabe, tipo café arábico, o mais valorizado. Onde? Sob os mares verdes de Sergipe. Pelo cheiro da naftalina, ocorrência de grande magnitude.
A nova descoberta brasileira ocorre exatamente na crista do maremoto dos blefes de guerra por sobre as colossais reservas do Golfo Pérsico. E com o barril ''Brent'' da excelsa mercadoria cotado acima de US$ 37, alta de 72% nos últimos 12 meses.
Era para o brasileiro soltar rojão de vara de quermesse paroquial. Afinal, estamos perto de 90% da auto-suficiência em combustíveis fósseis. Pois cadê o clima de festa? Assim como nossos canarinhos desafinam e nossos submarinos naufragam, estamos outra vez fazendo de uma grande notícia uma enorme trapalhada - já com pinta de escândalo corporativo, digno de um indefectível requerimento petista de CPI pra cima da ANP e da CVM.
ANP é sigla da Agência Nacional de Petróleo. Ela teria se antecipado no anúncio da descoberta, atropelando segredos de negócio da Petrobras e melindres de poder do Planalto. A Petrobras notifica que a agência agiu de maneira ''confusa e precipitada'' e emitiu informação relevante ''incompleta e equivocada''. Ainda não se teria uma avaliação segura da extensão e do conteúdo do ''front'' sergipano.
CVM é sigla da Comissão de Valores Mobiliários. Ela responde pela fiscalização do mercado brasileiro de ações, tripulado pelas empresas de capital aberto e coração nem tanto. Das quais a sociedade exige total transparência de planos, de contas e de decisões.
Como é sabido, a Petrobras nasceu há meio século como empreiteira do monopólio estatal da União. Deveria ter desfilado até hoje crachá de autarquia federal e não de empresa negociada em bolsa no interesse de acionistas privados. A autoridade sobre ela, ungida pelo monopólio estatal, estaria não numa assembléia de milhares de acionistas, mas numa assembléia de milhões de cidadãos.
Neste bizarro episódio, a CVM tem de sair a campo para decifrar o genoma de três pepinos: 1) por que houve corrida às ações da Petrobras no dia anterior à divulgação da descoberta; 2) quem seriam os autores do vazamento dessa preciosa dica de mercado (''insider information''); 3) quem teria deixado impressões digitais nas compras de véspera das ações da Petrobras.
Secos & Molhados
Prato cheio - Em resumo: forte odor de óleo queimado nas engrenagens do escandalômetro verde-amarelo. Um prato cheio para o governo Lula alimentar o questionamento público das nove agências reguladoras criadas. Elas monitoram negócios privados instalados no vácuo de extintos monopólios estatais. ''Com excessiva autonomia'', deplora o presidente.
Sem trauma - No mais, a Opep fez reunião em Viena para deixar tudo como está para ver como é que fica - antes, durante e depois da guerra que ainda não houve. Politicamente constrangida, ela promete apagar qualquer incêndio na coreografia do mercado. Cotações acima de US$ 35 já estariam ''precificando'' eventual bushada em Bagdá.
Óleo bruto - Com o reparo: não é tranquila a posição estatística do mercado. Para a queima global de 77 milhões de barris por dia, a margem ociosa da Opep (58% da oferta mundial) não tem passado de 3%. E os estoques dos países ricos (74% da demanda total) estão abaixo de 50 dias corridos de consumo. Nos Estados Unidos, 23.
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