JOELMIR BETING
''A pretensão messiânica de salvar a Humanidade é apenas o disfarce para a intenção de subjugá-la.''
Henry Louis Mencken (1880-1956), jornalista americano
Uma vida vale US$ 10?
Os contribuintes americanos vão pagar a conta da guerra com bolso, medo e sangue. O medo já está instalado no alarme laranja. O sangue ainda pode jorrar nas areias da antiga Mesopotâmia. Ou em alguma retaliação terrorista em Washington ou Nova York, de padrão 11 de setembro de 2001, o dia que ainda não terminou.
E o bolso? Ao tempo em que o governo Bush apresenta um orçamento nacional outra vez deficitário - e enfeitado por nova redução de impostos -, os gastos diretos e indiretos com a Defesa Nacional, vulgo Pentágono, avançam para mais de US$ 410 bilhões por ano-fiscal. Com reservas já soldadas de até US$ 94 bilhões para um segundo sopapo chipado pra lá de Bagdá.
Eis o custo socializado da guerra made in salão oval da Casa Branca de febre. Cada cidadão americano vai ter US$ 348 dos seus impostos desviados para o que o ex-presidente Jimmy Carter definiu segunda-feira, no The New York Times, como guerra sem causa, guerra injusta, guerra estúpida.
Eis que o professor Jeffrey Sachs, diretor do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard (presidida hoje pelo financista Larry Summers, ex-secretário do Tesouro), manda aviso aos navegantes da insensatez: esses mesmos US$ 348 per capita possibilitariam salvar da morte certa pelo menos 35 milhões de africanos de todas as idades - hoje condenados pela pandemia da Aids, com sobras para a malária, a tuberculose e a inanição.
Será que uma vida humana não vale US$ 10? É o que se pergunta Jeffrey Sachs. Com adendo: ''Milhões estão morrendo não porque a morte seja inevitável ou porque essas doenças não tenham cura. Elas simplesmente morrem porque não têm dinheiro para pagar remédios, médicos e clínicas em jovens Estados nacionais autodestroçados pela violência, pela corrupção e pela miséria.''
Sachs bate ainda mais duro: ''A triste verdade é que os africanos não faíscam nos radares da diplomacia americana. Afinal, eles não votam nos Estados Unidos nem compram produtos dos Estados Unidos.''
Faltou dizer: famintos e enfermos não fazem revolução dentro de casa nem terrorismo fora dela; simplesmente, morrem de fome ou de doença, já dizia Madre Tereza de Calcutá. E a poucas horas de avião da riqueza global concentrada nos dois lados do Atlântico Norte.
Sachs não poupa o megabloco europeu. Feito Pilatos das mãos lavadas, líderes europeus jogam a decisão para uma ONU que nada decide e, quando decide, nada realiza. Que o diga o diplomata brasileiro José Maurício Bustani. Em abril do ano passado, ele foi removido, por ordem expressa de Washington, do cargo de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas, da ONU.
Por uma simples boa razão: ele se atreveu a ordenar a inspeção, não apenas de fábricas do ''Eixo do Mal'', mas também de fábricas americanas dentro e fora dos Estados Unidos.
Secos & Molhados
Exumação - Nos tratos e nos retratos da ''pax americana'' pós-guerra fria, Jeffrey Sachs convida-nos a repassar um dossiê chocante, publicado em 2001: Late Victorian Holocausts (algo como Holocaustos do Período Victoriano Tardio), de autoria de Mike Davis, historiador inglês. Um tanto quanto ignorado pela mídia britânica, o livro continua produzindo constrangimentos políticos, éticos e morais.
Fatalismo - Seguinte: até o desmanche do colonialismo nos anos 50/70, Londres encarava a fome e a doença nas respectivas colônias como um fenômeno da natureza. A ordem era a da não-interferência nos ''assuntos internos'' das subnações subjugadas pelo Império. Exceção, claro, das brancas Austrália, Nova Zelândia e Canadá.
Nada mudou - Na reflexão de Jeffrey Sachs, as atuais bushadas da águia americana em nada diferem das antigas patadas do leão vitoriano. Por desígnios divinos, haveria povos e subpovos neste nosso vale de lágrimas. Portanto, um mero retorno ao século 19.
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