JOELMIR BETING
''Todas as cores sempre estão de pleno acordo - no escuro.'' Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês
Sementes da discórdia
Na ordem do dia e na desordem do tema, os chamados alimentos transgênicos, sacados de sementes geneticamente modificadas e monitoradas, voltaram ao debate aceso, ontem, em São Paulo. Convocados pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), representantes de todos os elos da cadeia produtiva cuidaram de amarrar as pontas soltas da abrasiva matéria para usinar uma demanda em bloco na direção de Brasília.
Para variar, as discussões acabaram por gerar mais calor do que luz. Não houve consenso sobre a adoção do plantio em larga escala de transgênicos. Ainda é uma grandeza o leque das dúvidas, aqui dentro e lá fora, quanto aos aspectos científicos, tecnológicos, ambientais, fitossanitários, agronômicos, operacionais, econômicos e comerciais. Sem contar, claro, a saúde em primeiro lugar do prato nosso de cada dia. De resto, já devidamente infestado de agrotóxicos residuais.
Sim, não houve consenso, mas quatro quintos dos produtores rurais e dos processadores industriais defendem uma rápida sentença oficial - a favor ou contra. Afinal, o assunto está na pauta brasileira há sete anos. Enquanto isso, a transgenia na produção de alimentos (e de remédios) contabiliza alvará oficial em 17 países e cultivo informal em dezenas de outros. Brasil no meio.
Somos do ramo por baixo dos panos e dos planos. Consta que vamos colher nesta safra recorde 2002/2003, que vai até junho, 11% de soja transgênica. Algo parecido com 3,4 milhões de hectares (64% dos quais no Rio Grande do Sul). Produção clandestina, pero no mucho. É a quarta safra gaúcha do gênero. Antes, com sementes contrabandeadas da Argentina, onde o cultivo está liberado. Nesta safra, com sementes reproduzidas em solo gaúcho, até dezembro último nas barbas do governo petista de Olívio Dutra. Coadjuvante do teatrinho encenado em 2001 por José Bové & Cia. na carona do Fórum Social Mundial.
A questão de fundo constitui um corredor polonês para os alimentos transgênicos. De um lado, enciumados, interesses comerciais atingidos na produção de alimentos ''naturais'' sob blindagem de defensivos químicos tradicionais. Interesses comerciais igualmente afetados na partilha do comércio mundial de ''commodities'' agrícolas. Que ainda ensaia estabelecer ''reservas de mercado'', com direito a prêmio de 10% para produtos ainda não modificados. Prêmio que a gauchada esnoba: o custo da soja transgênica é 20% menor.
De outro lado, a resistência orquestrada dos posseiros da ideologia da negação em abstrato de qualquer tecnologia apurada e patenteada lá fora. É como se o mundo estivesse ''rachado'' entre a favor ou contra a Monsanto conspiratória, líder das pesquisas e dona das patentes da transgenia da soja, do milho, do trigo, do centeio, do tomate, da batata e da banana. Mas cujo valor de mercado, em Wall Street, não tem passado de US$ 5 bilhões.
Secos & Molhados
Lembrete - Em biotecnologia, o Brasil da biodiversidade vai muito bem, obrigado. Melhor do que em qualquer outra área do vasto universo P&D. Exemplo: técnicos da Fafesp e da Embrapa estão ensinando os americanos a extirpar, biologicamente, pragas e doenças renitentes nos colossais vinhedos da Califórnia.
Nova onda - Nos Estados Unidos, começa a zarpar, nas marolas dos transgênicos, a primeira geração dos alimentos nutracêuticos (''biopharming''). Cereais, legumes e frutas modificados para hospedar propriedades medicinais. Yes, o alimento vai virar medicamento. Por enquanto, sem licença: há risco de ''descontrole de mercado'', o de se dar de comer remédio a quem não precisa dele...
Quarentena - Nosso embaixador em Washington, Rubens Barbosa, manda recado: a lei Bioterrorism Act, de junho de 2002, entrará em vigor em 12 de dezembro. Até lá, empresa que exporta ou vier a exportar alimentos, bebidas e remédios para os Estados Unidos vai ter de fazer registro prévio na Food and Drug Administration (FDA).
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