''Agora é Lula! E agora, Lula?''
Pára-choque de betoneira de Barueri (SP)



O rumo e o prumo

O presidente Lula repete o filósofo Gramsci: o diagnóstico pode ser pessimista, mas o enfrentamento tem de ser otimista. Ou como Bismarck aduziria em aparte: o pessimismo jamais ganhou uma única batalha. Tobin fecharia o cerco: se o otimismo não funciona e nada melhora, muito cuidado - o pessimismo funciona e tudo piora.

Pelo sim, pelo não, o ministro Antônio Palocci renova as promessas do batismo de fogo: a política econômica é essa que aí está e há que perseverar na execução dela. E mais: não há no forno a lenha da Granja do Torto nenhum Plano B para a superação dos obstáculos. Ou para a exumação da ''herança maldita'' dos governos anteriores. Ou como suspiraria o poeta Quintana: o passado não conhece seu lugar; o passado está sempre no presente.

O problema é que o câmbio resiste e a inflação persiste. A meta gregoriana do IPCA ainda pode ser remontada para um eixo de 9,5%, com teto de 11%. Para o mercado financeiro, auscultado na semana passada pelo Banco Central, o acumulado de 2003 leva jeito de cravar 12,3% no IPCA, no rodapé de um IGPM de 15,8%.

Há sinais de arrefecimento na cruzada nacional contra a reinflação do real. Parece já estar acordado entre os agentes econômicos que o câmbio já teria resvalado para uma ''banda de mercado'' com bitola de R$ 3,50 a R$ 3,65 por dólar. Ou seja: câmbio ainda no alto, mas não mais em alta. Renivelamento pelo ''overshooting'' de 52% no ano passado - o ano que ainda não terminou. Há um repasse (pass trough) residual ainda por fazer em diversas cadeias de formação de preços.

Tanto assim que a equipe econômica não pretende abrir mão do único xarope que lhe restou na farmacopéia monetarista aviada por FHC: o arrocho no crédito, com redução da oferta e elevação dos juros. Sob o diapasão da poderosa Selic, madrasta do Brasil.

Uma velha política monetária absolutamente coerente no equívoco. Tratar o atual surto de inflação de custos (cambiais e tarifários) com esse purgante manipulado para casos típicos de inflação de demanda é fazer do atual arrocho monetário um mal desnecessário.

Ou se preferem: autêntico remédio duro que, até por overdose, se converte em veneno puro. Juros no alto e em alta realimentam os custos financeiros dos investimento produtivos, do giro dos negócios e das prestações de consumo em banco ou em loja. Sob certa medida, uma sequela estagflacionista: a economia patina e a carestia não declina.

Pois, enquanto os economistas da escola monetarista sustentam que não existe esse negócio de inflação de custos e/ou inflação de demanda (o dragão é camaleônico) e que o corretivo monetário é para multiuso, os integrantes da equipe econômica avisam que os juros só vão recuar quando o Congresso aprovar a reforma previdenciária, a reforma trabalhista, a reforma tributária, a reforma financeira, a reforma agrária...


Secos & Molhados

Patinando As projeções do mercado financeiro amarram as pontas e as contas: um IPCA de 12,3% ou um IGPM de 15,8% para toda a travessia de 2003 guarda relação com a manutenção da Selic aí pela faixa de 25% e do dólar pela banda de R$ 3,60. Com PIB raquítico de 2%, ainda abaixo da mediana de 2,2% da Era FHC.

Reprisando Que não se perca de vista o reator do IPCA de dois dígitos: a escalada dos preços administrados pelo próprio governo. Exatamente os preços ou tarifas que transitam fora do alcance das bazucas trêmulas da política monetária anoréxica.

Pró-memória Atendendo a pedidos, a coluna reproduz o placar geral da inflação ponta a ponta na Era FHC (1995-2002): para um IPCA cheio de 100,7%, os preços que dão banana ao mercado subiram, na média do megabloco, 228,3%. Com destaque para transporte coletivo (217,3%), gasolina (261,7%), eletricidade (262,1%), telefonia fixa (509,7%) e gás de botijão (563,1%).

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup