JOELMIR BETING
''Uma nação só começa a criar juízo quando já está quase tudo perdido.'' François-Marie Arouet - Voltaire (1694-1778), filósofo francês
Encrenca platinada
Depósitos e aplicações financeiras denominados em dólares foram, subitamente, convertidos em pesos. Troca compulsória arbitrada em 1,40 peso por dólar. Com o detalhe não menos sinistro: depósitos e aplicações bloqueados nos bancos, vulgo ''corralito''.
O estelionato cambial a céu aberto, jurado em lei, ocorreu no início do ano passado. Agora, o Judiciário argentino, com pelo menos nove meses de atraso, abre um pequeno buraco no paredão da represa. É para deixar redolarizar depósitos de US$ 247 milhões do governo da Província de San Luis.
Qual é o problema? Um mero problema de hidráulica aplicada.
O pequeno buraco de US$ 247 milhões tende a virar um rombo da ordem de US$ 18,7 bilhões no centro de uma barragem de US$ 94,3 bilhões. Nada menos de 380 mil depositantes e aplicadores partem em revoada para exercer o mesmo direito de reconversão a 1,40 por dólar. Os bancos não têm esses dólares em ''cash'' e as reservas do Banco Central não passam de US$ 10,3 bilhões.
Os 380 mil beneficiários do ''precedente jurídico'' da Quarta-Feira de Cinzas estão bebemorando a decisão nos lares e nos bares. Azar dos 830 mil argentinos que tiveram suas dívidas denominadas em dólares devidamente desdolarizadas na mesma penada do ano passado. Uma redolarização dos créditos fatalmente levaria a uma redolarização dos débitos. Sem contar, claro, a ''bankrupty'' do já desconjuntado sistema financeiro argentino.
Ou ainda: os favorecidos pela redolarização, credores de até US$ 18,7 bilhões, continuariam com o dinheiro bloqueado nos bancos, ao tempo em que os prejudicados pela mesma redolarização, devedores de até US$ 37,8 bilhões, estariam largados no meio da praça cumprindo com suas obrigações não congeladas.
O estressado ministro da Economia, Roberto Lavagna, não dorme de touca. Dorme de cartola. Ele avisa que pode tirar da cartola um Plano B que converte os ativos que venham a ser redolarizados em nova baciada de títulos públicos para resgate em 2012. Uau!
Esse plano de rebonificação de depósitos e aplicações ainda engastados nas grades do ''corralito'' restante já recebeu o sinal verde do FMI. O auditor global entende que uma redolarização por ordem da Suprema Corte produziria em cadeia cinco grandes tremores de 8,5 graus da Escala Richter: 1) quebradeira dos bancos; 2) emissões superlativas de pesos sem lastro; 3) desajuste fiscal aterrador; 4) hiperinflação em moeda nacional; 5) desorganização econômica duradoura - com implosão social pela proa.
Na ponderação de analistas argentinos, não há mais saída sem choque, sem trauma, sem sangue. A pajelança da ''conversibilidade pétrea'' com ''paridade férrea'', ambas garantidas em lei, ora a lei, durou dez anos corridos e não há mais como reparar o estrago das assimetrias geradas antes, durante e depois do processo.
A menos que a Argentina faça a pirataria da URV brasileira. A gente deixa.
Secos & Molhados
Reversão - Certo, a redolarização pode não sair do papel ou não ir além dos caraminguás do governo provincial de San Luis. Mas a encrenca está restabelecida no melindroso jogo das expectativas dos agentes econômicos. A percepção ainda gasosa de que o pior já teria passado sai para o acostamento dessa nova quadra de incerteza.
Meia-volta - Corre-se o risco de uma reversão da reversão que se desenhava no estado de choque que já dura mil e uma noites. O setor industrial voltou a crescer, as exportações voltaram a subir e a inflação voltou a contentar-se com menos de 1% ao mês. Com desemprego ainda recorde de 23% da força nacional de trabalho.
Complicador - A desestabilização da economia tem feito ligação com uma instabilidade política que já tocou as fímbrias de uma ''crise de governabilidade''. O vizinho está a menos de sete semanas do primeiro turno das eleições presidenciais e nenhum candidato logrou até agora aproximar-se de 20% das más intenções de voto.
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