''A economia brasileira é um animal de zoológico. Ela deve ter a força de um tigre. Porém, enjaulado.''
Kenneth Wilson, consultor americano

Ainda não decolou

Há cinco anos, março de 1997, a Bolsa de Valores de São Paulo movimentava, em média, negócios de US$ 1 bilhão por dia, dólar então na paridade forjada de R$ 1,05. O valor de mercado das empresas cotadas em bolsa transitava ao redor de US$ 340 bilhões.

Nesta Quaresma de 2003, dólar estacionado acima de R$ 3,50, o movimento diário da Bovespa mal passa de US$ 150 milhões e o valor de mercado das empresas negociadas está abaixo de US$ 100 bilhões. Ou exatos US$ 99 bilhões na travessia de fevereiro, segundo estimativas da consultoria Economática.

A desvalorização cambial de 240%, em cinco anos, não explica tudo. Em real, deflacionado pelo IGPM, o mercado brasileiro perdeu metade de sua densidade no mesmo período. Em valores nominais, o Ibovespa subiu, ponta a ponta, apenas 9%. Em dólar, despencou 68%.

A evaporação do mercado brasileiro, de resto espancado por tributos oblíquos sem paralelo lá fora, foi de tal ordem que das 285 empresas que totalizavam 99% do valor de mercado em março de 1997, um pelotão de 51 desertou da Bovespa sem deixar saudade. E duas dezenas das que resistiram, as maiores, preferiram colocar o pé direito na canoa chipada de Wall Street.

Vai daí que o mercado de ações, DNA do capitalismo social, desfila em versão brasileira um nanismo endêmico de doer o coração.

Nem mesmo a existência viscosa de empréstimos bancários curtos e caros consegue deslocar o financiamento do sistema produtivo do crédito para o capital. Ou do credor para o sócio. O que levou Roberto Campos, ainda nos anos 80, a redefinir o Brasil como um estranho no ninho: ''Não somos um país capitalista. Ainda somos um país capinanceiro.''

Com direito a disparates em cadeia. Nos últimos nove meses, temporada de juros no alto e em alta, na ponta da aplicação do crédito, os investidores em renda fixa, na base da captação do recurso, não estão conseguindo sequer empatar com a variação do IGPM. Não por acaso, o retorno sobre o patrimônio tem sido de 24,5% nos bancos e de -13 a +6% nas fábricas, nas lojas e nos serviços.

Pelo sim, pelo não, o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, deita o pé na estrada para fazer a catequese do investimento em ações e fundos de ações em locais de trabalho, em trios elétricos e em palanques de praia. Esta semana, ele desfila em duas páginas da Veja a catequese do ABC do mercado dentro de fábricas do ABC. A idéia é antiga: popularizar a opção do investimento em ações, no vácuo das recentes investidas de rebarbas do FGTS em títulos da Vale e da Petrobrás.

O programa de popularização do mercado de ações, usinado pela Bovespa, já passou pelo sinal verde do governo Lula. O presidente está de olho nele desde as jornadas de transição. Falta quebrar a indiferença do Congresso. Raymundo Magliano já conversou, lá mesmo em Brasília, com 487 deputados e 63 senadores.

A referência é a de sempre: apenas 2% das famílias brasileiras têm pé-de-meia em carteiras próprias e/ou coletivas de ações. Nos Estados Unidos, para variar, 52%.

SECOS & MOLHADOS

Virou vice - Em cinco anos, o Brasil perdeu a liderança física da economia da América Latina. No PIB, caímos para vice, comendo a poeira do México. Na Bolsa, o valor de mercado aqui está agora 15% abaixo do valor de mercado no México. O efeito câmbio explica muito, mas não explica tudo. No PIB, vamos de 1,5% ao ano.

Virou coca - Em valor de mercado, o Brasil dos pregões, cotado a US$ 99 bilhões, ficou do exato tamanho da Coca-Cola. Ou menor que a Merck dos remédios, cotada na semana passada a US$ 117 bilhões. Se serve de consolo ou de fofoca, em bolsa o Brasil vale dois Chile e quatro e meia Argentina...

Virou pauta - Em tempo. A popularização do mercado de ações, a partir de penada na legislação do FGTS, virou projeto de lei e já tem como relator o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). O projeto enquadra o uso do FGTS e introduz na aplicação de risco em bolsa a garantia de um retorno mínimo de TR mais 3% ao ano. Ou seja: a rentabilidade máxima do dinheiro congelado no próprio FGTS.

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