''O brasileiro só é otimista mesmo entre o Natal e o carnaval.''
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
Feliz ano novo
Começa nesta Quarta-Feira de Cinzas e de ressaca, já em plena Quaresma, o ano novo do Brasil. O próprio governo Lula, igualmente novo, avisou que precisaria de pelo menos dois meses para esquentar as cadeiras e as turbinas e desenhar seu plano de vôo para a travessia de 2003. Ano do vai ou racha ou rebenta a faixa.
As atividades econômicas em geral sempre funcionaram a meia bomba até a passagem do carnaval. Em janeiro e fevereiro, férias de verão, administra-se o provisório e a protelação. Fábricas, lojas e serviços em geral limitam-se a farejar iniciativas de mercado para o ''depois do carnaval''. Exceção, claro, dos negócios plugados direta ou indiretamente nas compulsivas demandas do lazer e da folia.
Para os investimentos em publicidade comercial, com sobras para a propaganda institucional, está estabelecido, desde os anos 50, um acordo tácito entre anunciantes, agências e veículos de comunicação: as campanhas anuais são colocadas em marcha só a partir de março, ano novo do Brasil.
Pelo cheiro da brilhantina, a temporada 2003 talvez não saia das estreitas bitolas de 2002 o ano que ainda não terminou. E não por culpa do blefe político da guerra bushista lá fora. É por obra e desgraça de nossa guerra sem quartel e sem trégua contra a inflação indexada, contra o desvio de rota do câmbio ofídico, contra o trote de caranguejo das reformas institucionais, contra os efeitos perversos de uma política monetária equivocada.
Mas já que hoje é dia de ano novo, isolemos sinais positivos destilados pelo noticiário econômico da semana passada, vigília do carnaval da distensão nacional. De fora para dentro, a percepção de que ''o pior já passou'' expressa na revalorização do nosso estressado C-Bond e no declínio piedoso do famigerado risco país.
Sem mistério. O déficit externo em conta corrente já está abaixo de 1,5% do PIB e o superávit primário interno, o das contas fiscais, acaba de cravar 7% do PIB nesta decolagem do governo Lula. Lembram-se do pavor do tal de ''mercado'' com um Lula lá implodindo o ajuste externo e o aperto interno? Pois essa manipulação importada, que a coluna sempre tratou como ''pânico sacana'', tende a continuar dando as cartas nesta Quaresma.
De que maneira? Mantendo no câmbio orquestrado a anterior ''precificação'' do Medo Lula acima de R$ 3,50. Cotação que amoita um prêmio de risco da ordem de 52,8%, arbitrado em causa própria pelos chacais da moeda na sinistrose de 2002.
Pelo sim, pelo não, salvo Bush em contrário, a banca internacional restabelece linhas de crédito para o Brasil em plena recarga da ''aversão ao risco'' da guerra alheia. Nossas empresas já estão rolando 100% dos papagaios vincendos nos dois lados do Atlântico Norte.
Pelos flancos da economia real, ainda no aguardo dos primeiros contratos e pedidos deste ano novo do Brasil, o destaque vai para o PIB verde de esperança: a nova safra brasileira de grãos, nesta primeira colheita do governo Lula, acaba de ser reestimada pelo IBGE em 107,4 milhões de toneladas. Um recorde. Um décimo maior que a da última colheita de FHC.
Secos & Molhados
Tartaruga
O organismo econômico brasileiro está vocacionado, historicamente, para um crescimento anual de 7%. Nos oito anos do governo FHC, real a bordo, a expansão anual média não passou de 2,3%. Aqui para 2003, cenaristas do sistema financeiro juram por todos os juros que o PIB não passará de 2%. Ano passado, nada além de 1,5%.
Para fora
O principal aditivo do PIB verde-amarelo de anemia é agora o setor exportador. Por enquanto, mais placebo que aditivo. Os embarques para o mundo crescem abaixo de 8% ao ano. Certo, o comércio mundial contenta-se com 5% ou mesmo com 3%. Mas nossa base de torque ainda é ridícula: estamos exportando menos de 8% do PIB. Bem abaixo da média de 19% do planeta dos emergentes, tigrada à frente.
Enjaulados
Com garrote tributário e arrocho monetário por enquanto irreversíveis, sem paralelo no mesmo planeta dos emergentes, jamais voltaremos a crescer 7% ao ano. Nem com reza brava.

mockup