JOELMIR BETING
''Onde existe mercado, a inflação não decola. Onde existe governo, a inflação deita e rola.''
José Maria de Jesus, desempregado e inflacionado
Diga não ao fogão
De janeiro de 1995 a dezembro de 2002, oito anos corridos do governo FHC, a inflação medida pelo IPCA, índice das metas oficiais, acumulou ponta a ponta elevação de exatos 100,7%. Muito ou pouco? Pouco para a cultura inflacionista da Botocúndia (que se contentou com 84% ao mês no último suspiro do governo Sarney). Muito para um rarefeito programa de estabilização, ainda distante da estabilidade.
O importante é dar uma espiada na autópsia desse índice já arquivado. Nas vísceras dele, os tumores não removidos da (re)indexação de contratos e tarifas monitorados pelos três níveis de governo. Ou seja: os preços praticados livremente pelo mercado, sob o chicote da concorrência e da substituição, acumularam naquele mesmo período remarcações ponta a ponta abaixo de 70%. Já os chamados preços administrados, com peso ao redor de 30 na estrutura do IPCA, simplesmente deram uma banana nanica e um abacaxi pérola aos esforços coletivos pela estabilização do real.
Falam os números indecentes: em oito anos, para aquele IPCA de 100,7%, os preços regulados por contrato e/ou por imperícia subiram nada menos de 228,3%. Entre outros, a gasolina nossa de cada dia cravou 261,7%. O transporte coletivo nas sete maiores metrópoles deixou-se remarcar em 274,8%. A conta da força e da luz a domicílio emplacou 262,1%. Com apagão de contrapeso.
E o que dizer da telefonia fixa? As linhas instaladas duplicaram no período de 19 milhões para 38 milhões, mas as tarifas totalizaram reajustes contratuais de 509,7%. Mas o campeão da inflação por decreto acabou sendo, caprichosamente, o único item de consumo presente simultaneamente em 97% dos lares brasileiros: o gás de botijão. Remarcação acumulada (até aqui não explicada e muito menos justificada) de 500,69%, do Plano Real até o mês passado, segundo a Fipe. Por enquanto.
Pois tome o governo Lula, a bordo dessa ''herança maldita'', acionando uma divisão estritamente técnica, o Banco Central, para um apelo político a todos os brasileiros: ''Digam não à inflação!'' Está na ata do Copom, divulgada quarta-feira, para explicar e justificar o novo arrocho monetário no rodapé do novo ciclone inflacionário.
Em vez de o presidente Lula aparecer em rede nacional de rádio e televisão, às 20 horas, para legitimar em dois minutos um ''pacto social contra a inflação'', a cruzada palaciana apelou para um dispositivo inodoro e insípido de exortação acaciana: ''O Copom avalia que, além dos efeitos diretos da política monetária (...), são importantes as reações da sociedade contra a inflação, para propiciar um recuo mais significativo da variação dos preços.''
Primeiro: arrocho no crédito e juros no alto e em alta não produzem ''efeitos diretos''. A menos que se admita como adequado combater inflação típica de custos com elevação dos encargos financeiros da produção e do consumo. Segundo: o reator da reinflação do IPCA, agora na bitola gregoriana de dois dígitos, está nos preços de governo e não nos preços de mercado.
Quem é que vai dizer não ao gás de fogão?
Secos & Molhados
Duas frentes - Não bastaria desencantar os preços administrados - pelo desacato de contratos de concessão. Seria igualmente preciso arrancar as unhas da mão-de-gato da dolarização. Seja a dolarização natural de preços privados, seja a dolarização espúria de preços públicos. Caso da ''lógica de mercado'' da estatal Petrobrás.
No desmanche - Na dolarização dos preços privados, nada tem o governo a fazer no bloco dos importados. Os consumidores já estão há três anos travando o repasse de um bocado de ''ajustes cambiais'' em tabelas de fábrica e em vitrines de loja. Há mercados literalmente em escombros, com retração de demanda da ordem de 10 para 1.
Por que não? - Duro de deglutir tem sido a dolarização sem remorso de festejados produtos de exportação. Em especial aço, papel, açúcar e óleo de soja. Em países atentos, sob certas condições, há taxação sobre exportação. De caráter emergencial ou regulatório - vulgo confisco cambial.
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