''Boa notícia: o dólar não vai subir mais. Má notícia: baixar que é bom, jamais.'' Antônio Sobreira, despachante aduaneiro

Virou Banda Cambial

Em agosto do ano passado, palanque eletrônico já instalado, o mercado financeiro fez posição jurada forte para um dólar a R$ 2,60 na ponta de dezembro. Projeção cambial que já ''precificava'' uma vitória de Lula no primeiro ou no segundo turno de outubro.

Naquela altura do calendário, a ''Carta ao Povo Brasileiro'', emitida pelo PT, comprometia-se com a sustentação da estabilidade monetária, com a usinagem das reformas ainda encalacradas e com a segurança jurídica dos contratos. Incluídos os contratos da dívida aqui dentro e da dívida lá fora.

Infelizmente, a especulação sem fronteira, já então resvalando para a manipulação sem bandeira, apontou suas bazucas para terríveis desequilíbrios fiscais em gestação, pretexto para a elevação orquestrada do risco País - três vezes maior que o da Colômbia. E deu no que deu: o câmbio perdeu o juízo e flutuou nas fímbrias de R$ 4,00 por dólar - ainda antes da vitória de Lula.

Esse ''overshooting'', de tal magnitude, desenhava-se transitório (efeito bolha). O problema é que o danado resistiu à posse de Lula e a estes primeiros 57 dias de absoluta capitulação do governo petista aos sibilinos ditames do ''mercado''. O dólar permanece aí pela estreita banda de R$ 3,55 a R$ 3,65, ensaiando mediana de R$ 3,60 para o ano todo.

O próprio mercado financeiro acaba de convalidar essa banda cambial pactuada. Em relatório semanal do Banco Central, os bancos vaticinam mediana de R$ 3,60, projetando R$ 3,65 lá na ponta de dezembro. Há quem corrija essa chutometria para algo acima de R$ 3,80. Mas há quem aposte em alguma coisa abaixo de R$ 3,40. O ministro Luiz Fernando Furlan acaba de colocar suas fichas em mediana de R$ 3,50.

Descontada a cartomancia cambial recheada de álgebra financeira, os agentes econômicos estão a fim de, resignadamente, assumir a coexistência com câmbio no alto, pero não mais em alta. O negócio, pois, é tocar a vida. Esboça-se uma quadra de estabilização cambial que pode cobrir também a travessia do ano que vem. O mercado enxerga dólar a R$ 3,80 para dezembro de 2004.

Vai daí que escorre pelo ralo, por linhas tortas e tristes, a pressão cambial sobre a formação de custos e preços da economia como um todo. A tal ponto que os cenaristas de bancos admitem para o ano um IPCA de 12%, no mesmo calibre de 2002. E, por causa disso, joga-se com Selic de 22% ali pela véspera do Natal, ela que acaba de escalar 26,50% nesta vigília do carnaval. Pelo IPCA, taxa básica real embicada para 10% ao ano.

Claro, o câmbio flutuante não perde a mania de flutuar, lembra Antônio Delfim Netto. Neste momento solene, por exemplo, não seria um disparate imaginar um dólar a R$ 3,90 no ''day after'' do primeiro míssil bravateiro de Bush nos calcanhares de Saddam. E com direito a barril de petróleo acima de R$ 40 e risco País ao redor de 1.600. Com PIB no declive e desemprego no aclive.

Secos & Molhados

Carambola -Em tal cenário, haveria remarcação preventiva de tabelas de fábrica. Sem desconto. Quem ainda não repassou a bolha que não furou vai tentar repassá-la a partir da Quarta-Feira de Cinzas, ano novo do Brasil. O que redundaria em nova fuzarca do IPA no ventre do IGP. Uma reversão da reversão suficiente para catapultar a Selic para 29,50%. Na Quaresma da desilusão nacional.

Liquidação - No pára-choque do mercado, o comércio lojista prefere não perder o fio da meada das liquidações de verão. A campanha Liquida São Paulo (infeliz, não?), dos shoppings, acaba de colocar 72 mil itens em oferta com descontos de 30% a 75%.

Como é que é? - Sem refresco no IPCA. Quando os preços sobem, é inflação. Quando baixam, é promoção. E os juros? Quando a Selic recua, o crediário avisa que precisa de seis meses para repassar a baixa. Quando a Selic sobe na base, os juros da ponta sobem na semana seguinte...

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