JOELMIR BETING
''Está escrito: provocar recessão para combater inflação equivale a matar a vaca para acabar com o carrapato.''
José Maria de Jesus, engenheiro demitido
Austeridade equivocada
Primeiro ponto: se recessão derrubasse inflação, Collor, o demolidor, teria acabado com a fera. Segundo: se recessão derrubasse inflação, estaríamos a um passo da inflação zero desde o apagão de 2001. Terceiro: se recessão derrubasse inflação, os argentinos estariam em baita deflação desde 1999.
Ou se preferem: se expansão provocasse inflação, a China e a tigrada asiática estariam com inflação anual de três dígitos desde meados da década de 80. E o que dizer dos Estados Unidos de Clinton na exuberância de 1995/1999? Na média anual, o PIB cresceu perto de 5% e o IPC não passou de 2,5%. Pois, bem ao contrário, no último triênio do governo Carter, 1978/1980, o IPC ficou acima de 12% e o PIB regrediu 4,2%.
E o que dizer do Brasil 2000? Lembram-se? Enquanto o PIB escalava do crescimento zero para 4,4% no ano, o IPCA gregoriano simplesmente retrocedia de 9% para 6%. A papagaiada monetarista da inflação de demanda colocou o bico no toco e nem se animou em buscar explicação para o ''espantoso paradoxo''.
A coisa começou em outubro de 1999, já consolidado o ajuste cambial de mercado. Na surdina, como convém a expedientes do gênero, o Banco Central de Fraga & Malan soltou cautelosamente as amarras dos empréstimos bancários para produção, giro e consumo. Em dois trimestres, expansão de 32% na oferta e redução de 23% no custo final dela. Sem farra de crédito.
E deu no que deu para o governo Lula relembrar agora na cama ainda quente da Era FHC: bastou essa garoa bancária na horta da economia sem capital (o compulsório dos bancos resvalou de 75% para 40%) para alavancar o consumo e a produção sem reverter o viés da estabilização. No primeiro trimestre de 2001, os agentes econômicos faziam fé em PIB de 5,5% com IPCA de 3,5%.
Até março, o setor industrial exibia expansão de 7,2% ao ano.
E não menos relevante: essa retomada, por nossa própria conta e risco, ocorreu caprichosamente na contramão do estouro da megabolha de Wall Street, do pouso forçado da águia americana, da desaceleração global, do colapso argentino... Bem, só não deu para encarar a sabotagem emocional do apagão trapalhão de abril/maio/junho. Com capas de revista e manchetes de jornal fazendo as trombetas do Juízo Final: ''Brasil arrasado'', ''É o caos'', ''Desemprego em massa'', ''Dólar explode'', ''Real ferido de morte''.
Na época desse grotesco erro coletivo de avaliação do nosso ''choque de eficiência energética'' (que não era uma tragédia, mas uma solução na pátria do desperdício de energia), vingou a ''dura lex'' de Tobin: ''Basta a expectativa de crise para provocar a crise - que sanciona a expectativa.''
E lá se foi para o ralo da sinistrose nacional a já tardia retomada do crescimento econômico com estabilidade monetária. Berrou-se tanto sobre um ''choque de oferta'' na inflação que o câmbio saiu dos trilhos e os juros voltaram às nuvens. Só faltava um Bin Laden quatro meses à frente... Então, não faltou mais nada. Até hoje.
SECOS & MOLHADOS
Overdose - E tome o Copom do Bacen de Lula reapertando o arrocho monetário no tripé já arrochado do consumo, da produção e do emprego. A panacéia recorrente chamada Selic vai para 26,5% e o compulsório criogênico sobe de 45% para 60%. Ou para 68%, computadas novas ''exigibilidades'' na alocação dos ativos bancários.
Pajelança - Crédito curto e caro não arrefece inflação de custos. Desde quando aumentar os custos financeiros da produção e do consumo é amainar a febre da inflação? Corre-se o risco de empurrar a economia para o pior dos mundos: o da estagflação. Relação patogênica de economia em baixa com carestia em alta.
Pela culatra - Juros no alto e em alta também encarecem a rolagem da dívida pública que financia o déficit público. E, fechando a roda, deprimem a realização dos negócios e trabalhos privados e mutilam a arrecadação de encargos e tributos que financiam os cofres públicos. Risco Brasil é apelido.
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