JOELMIR BETING
''Quando a esquerda começa a fazer contas, transforma-se, sem rebuços, em direita.'' Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
De Friedman a Freud
De Lula ao mercado: ''Pare de me dizer a toda hora o que devo ou não devo fazer. Afinal, quem foi escolhido pelo povo para governar este país? Eu ou você?'' Do mercado a Lula: ''Você, presidente. Mas quem dita as regras sou eu!''
Esse ''diálogo cruel'' é simulado pelo economista Rubem de Freitas Novaes, em artigo para o jornal Valor (17/2/2003), para ilustrar o cativeiro intelectual (e operacional) em que se meteu, não é de hoje, a política monetária com aval palaciano. Ou, agora, com aval palocciano.
Sim, continuamos todos reféns da Selic, taxa básica de juros. Seria ela o verdadeiro presidente do Brasil? Tal como no governo FHC, a política monetária sopesada e executada por um Banco Central ainda não independente faz com que também o presidente Lula exerça o melancólico papel de rainha da Inglaterra: reina, mas não governa.
Não é para menos. Segundo a cartilha monetarista made in Chicago, seguida ao pé da letra aqui em Botocúndia, a Selic desfruta de tamanha capacidade de intervenção na vida da gente que basta uma alteração periódica da taxa, à direita da vírgula, para expandir ou encolher o consumo, a produção e o emprego.
E mais: no mesmo torque, e por seu poder de indução de todos os mercados de bens e serviços em geral, uma ligeira penada da Selic, à direita da vírgula, é capaz de segurar a inflação pelos chifres, trancafiando o dragão na jaula da recessão preventiva e/ou punitiva.
E tome nos jornais de hoje a recorrente chamada da nova reunião do Copom, comitê do Banco Central encarregado de mexer (ou não) na Selic: ''Analistas financeiros esperam que a Selic suba hoje, na reunião do Copom, em até 2 pontos porcentuais. Para eles, esse ainda é o remédio infalível para conter a alta da inflação.''
Bem, estou de picuá estourado de tanto contestar, nesta coluna, esse rasgo de monetarice enrustida, com sua granítica ''coerência no equívoco'', diria Roberto Campos. Se recessão derrubasse inflação, a Argentina estaria em deflação desde 1999. Ano passado, o PIB regrediu 14% e o IPC explodiu 43%. Friedman explica? Nem Freud.
Mas já que eles não desistem do lado de lá, eu insisto no lado de cá. A Selic monitora os preços administrados pelo governo? Não. Ela interfere nos preços dolarizados pelo mercado, incluídas as estatais Petrobrás e Eletrobrás? Não. A Selic alcança os 93% do consumo agregado banidos do crédito em banco e em loja? Não.
Pois os preços administrados e os preços dolarizados, de mãos dadas, respondem por dois terços dos núcleos do IGP-M e do IPCA acumulados nos últimos 12 meses.
E vamos nós. Amplia-se a overdose do arrocho monetário em nome da ''reversão das expectativas inflacionárias'' no mesmo dia em que o governo autoriza reajustes de 18% a 42% nas tarifas de energia, insumo básico da economia.
Secos & Molhados
Onde pega - Se crédito curto e caro supostamente segura a inflação, o tranco não está na Selic no alto e em alta, mas nos empréstimos de balcão. Com ''spreads'' opacos de 54,3% nos bancos e de até 83% nas lojas. Fonte: Procon.
Usurabrás - Pois os consumidores desinformados continuam espancados por juros anualizados de 88,4% no crédito pessoal em banco, de 117,3% no crediário em loja, de 221% no cheque especial, de 234% no cartão de crédito e de até 325% nas financeiras... Fonte: Bacen.
Exclusão - O novo governo TPS (Tudo Pelo Social) ainda não foi avisado do detalhe: as despesas financeiras já devoram 32% do orçamento das famílias brasileiras de baixa renda hipotecadas em banco ou em loja. Fonte: Anefac.
Festança - Essa dissonância cognitiva da política monetária, endossada pelos analistas e até pelos empresários, serve apenas para encher as burras dos bancos. Em 2002, lucraram 24,5% do patrimônio líquido. As grandes empresas do setor produtivo, 5,6%. Fonte: Austin Asis.
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