''O Brasil é um transatlântico e não um Fusquinha. Se fizer uma virada brusca, é naufrágio na certa.''
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

Titanic, não

Sim, ''não temos vocação para Titanic'', disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada. Ele remetia a carapuça para a galera radical do PT, que exige publicamente do transatlântico Brasil um cavalo-de-pau digno de um Fusquinha em terra batida.

Ontem, na mensagem de boas-vindas ao novo Congresso Nacional, o presidente voltou a desfiar, nas entrelinhas, o eixo da ''realpolitik'' deste primeiro governo petista. Discurso recortado para localizar o abismo que separa o Brasil que deveria ser feito do Brasil que pode ser feito. E bem-feito, se possível.

Sentado no trono de ouro da popularidade interna e da credibilidade externa - capital político volátil -, o presidente Lula já sentiu o peso de chumbo das candentes ''desiderata'' de nossa democracia burguesa - mais esperançosa hoje que na instalação da Nova República, em 1985.

Para senadores, deputados, ministros e magistrados, o presidente Lula renovou as promessas do batismo assumidas com meia dezena de reformas de salvação nacional ou de remissão coletiva: previdenciária, tributária, financeira, trabalhista e política

São mudanças de fundo, ainda sem versão definitiva. Mas todas elas tendo de contar, necessariamente, com o aval da Câmara, do Senado e do Judiciário.

Calculista, desenhista e projetista dessas reformas, o governo Lula, em minoria do Congresso, vai precisar do lastro mínimo de 257 deputados e 41 senadores para a promulgação de leis complementares. Ou de 308 deputados e 49 senadores para as emendas constitucionais. Em duas votações, em dois turnos, nas duas Casas. Democracia pra nenhum suíço botar defeito.

São reformas tecnicamente complexas e politicamente abrasivas. Tanto assim que estão em gestação intermitente, entre nós, de Sarney a Lula, via Collor, Itamar e FHC. Há quem defenda recomeçar tudo do zero. Claro, com propostas arredondadas até maio ou junho, no mais tardar. Não dá para perder mais tempo com o debate de intenções em aberto - enrolação que ensaia despejar água clorada no chope ainda espumoso do recém-instalado Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Na mensagem de ontem, o presidente Lula deu a entender que temos de ser suficientemente apressados para realizar as reformas e suficientemente cautelosos para não cometer bobagem em nome da urgência. Será que esse preceito permitiria definir o projeto da Previdência até maio? Desconfio que não. A questão da adoção ou não do ''regime único'' ensaia desandar a maionese dessa reforma, tal como o impasse da ''partilha do poder fiscal'' entre União, Estados e municípios teima em congelar a reforma tributária no Congresso desde 1992.

Pelo cheiro da brilhantina, a previdenciária e a tributária terão de contar com pelo menos 308 estadistas na Câmara, 49 estadistas no Senado - além do estadista já instalado no Palácio do Planalto.

SECOS & MOLHADOS

Sem emoção - Em terceiro plano, transita a reforma do sistema financeiro, vulgo regulamentação do artigo 192 da Carta de 1988. Uma reforma, de resto, fatiada, já a meio caminho. Com mata-burros nesta próxima curva: a do grau de autonomia do Banco Central. Do PT ao PFL, os congressistas torcem o nariz para uma autoridade monetária vacinada contra ingerências políticas diretas ou oblíquas.

Sem coragem - Em quarto plano, a reforma trabalhista. Aqui, a intenção tornou-se um fim em si mesmo. Tem-se no trato dela uma desconversa organizada. Ainda que exista algum consenso na tríade Estado-Capital-Trabalho, quem ousará colocar o sininho no pescoço do gato siamês da CLT?

Sem apetite - Em quinto plano, a reforma política. Esta tende a ser empurrada com a barriga até 2010. Os políticos não deixam de legislar em causa própria. Nada de voto distrital misto, de fidelidade partidária monástica ou de transparência contábil no financiamento público de máquinas partidárias e de campanhas eleitorais.

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