JOELMIR BETING
Sem mistério. O mundo continua movido a petróleo.
E o preço do barril ainda é a pechincha da História.
Richard Balding, economista americano
A guerra é nossa?
Quando se fala, em clima de guerra, destilado pela indústria do medo, que o estoque americano de petróleo não passa de 14 dias e que até por causa disso invadir o Iraque é preciso, o presidente Lula deve colocar suas barbas de molho. Estão misturando um caldo de loucura para lançar o barril de petróleo, vestido de barril de pólvora, na estratosfera dos US$ 50 ao disparo do primeiro míssil inteligente pero no mucho.
Aí, o rompante da Casa Branca pra lá de Bagdá atingiria o Palácio do Planalto pra cá da Granja do Torto. O programa econômico do governo Lula, ainda imobilizado pelos desvios e vazios da Era FHC, não mais teria como sair da toca, com todo esse vasto mix de combustíveis de extração nacional devidamente dolarizado pela lógica de mercado da Petrobrás, multinacional verde-amarela de orgulho.
Haveria estilhaços não menos subversivos pelos flancos dos créditos externos, dos juros internos, do câmbio sem juízo e da inflação preventiva.
Ocorre que os economistas do Banco Santos, em estudo técnico, sustentam que, no caso brasileiro em especial, bola da vez da aversão ao risco global no ano passado, já ostentamos indicadores econômicos devidamente blindados pela precificação (ou apreçamento) da catástrofe que não houve. Há sobras da pá virada no câmbio do blefe e nos juros do medo.
Em cenário de guerra relâmpago, o Banco Santos projeta dólar a R$ 3,76 na ponta de dezembro, com coeficiente de rolagem de 74% da dívida externa no ano. Afinal, a liquidez internacional está suficientemente enxugada pela vigília da guerra que já dura 13 meses. Há uma enorme oferta reprimida pedindo passagem na estratégia de negócios da banca internacional.
Lembra o Banco Santos que nossos agentes econômicos estão sentados em proteção cambial recorde, acumulada desde a reversão das expectativas no blecaute mental do apagão 2001. A idéia de um dólar no alto, mas não mais em alta, aponta para o esvaziamento da subversão do câmbio no ventre do IPCA.
Em relação ao petróleo - onde nossa vulnerabilidade lá fora decorre de nossa dolarização aqui dentro -, os analistas do Banco Santos lembram que a Petrobrás já admitiu pensar em não repassar o choque da guerra aos derivados aqui refinados - claro, se guerra de curta duração, hipótese primeira. Só faltaria o ministro Antônio Palocci deixar escapar que haveria, por tabela, um expurgo do efeito acidentalidade (da guerra) no cálculo do IPCA... Guerra é guerra, uai!
Que prato cheio! Pelo sim, pelo não, o Banco Santos entende que nossas defesas contra os impactos efetivos da guerra alheia na economia brasileira têm a ver menos com o câmbio e mais com o petróleo. Ou mais com a resposta corporativa da Petrobrás do que com a política monetária do governo.
A análise parte do princípio de que petróleo acima de US$ 30 não se sustenta e dólar acima de R$ 3,60 também não.
secos & molhados
Um dígito?
O modelo recortado pelo banco de Edmar Cid Ferreira não descarta IPCA de um dígito para 2003. Uma taxa gregoriana próxima de 9%, ligeiramente acima do teto da meta oficial de 8,5%. Ou abaixo da projeção coletiva do próprio mercado financeiro, apurada na semana passada, de 11,8%.
Cenário B
E no caso pouco provável de uma guerra tópica com duração de três a seis meses? Bem, aí nem a economia americana agüentaria a ogiva de Bush no próprio pé. Com o lembrete: há gordura nas margens da Petrobrás, nas tarifas do mercado e nos impostos do governo. Sem contar as Taxas da Selic. Portanto...
Relatório
O relatório Economia em Foco, fevereiro 2003, do Banco Santos, sobre os efeitos da guerra e/ou da paz na economia brasileira, é assinado pelos economistas Marco A. Maciel, Ana Paula Higa e Márcia Régia de Lima Dantas. Disponível na Web (www.bancosantos.com.br).





