JOELMIR BETING
''Somos todos cúmplices dessa guerra.Nos impostos que pagamos por ela.'' Pedro Almodóvar, cineasta espanhol
A bomba já explodiu
Os maiores estragos de um novo piparote chipado dos Estados Unidos no nariz de borracha do Iraque de Saddam já foram em meio mundo devidamente contabilizados. Aconteça ou não a nova guerra televisiva com aviso prévio, as perdas em cascata estão consumadas.
Isso ocorre há mais de um ano. Ou desde a decretação da doutrina ''Eixo do Mal'', em 29 de janeiro do ano passado, escombros das torres de Wall Street ainda fumegando na Churchill Street. Na expectativa de um conflito rosca sem-fim contra um inimigo sem endereço nem documento - o terrorismo político travestido de fundamentalismo religioso -, os tais de ''mercados'' cuidaram de ''precificar'' os principais indicadores de uma nova Economia de Guerra. De caráter rarefeito e intermitente.
Até 29 de janeiro deste ano, primeiro aniversário da retaliação americana pós-desmonte do Estado Taleban no Afeganistão, o dólar acumulou desvalorização de 21% fora dos Estados Unidos, na média ponderada das 30 moedas de maior peso na economia global. No mesmo período, as 50 maiores bolsas de valores do mundo ruminaram, em bloco, perdas de valor de mercado da ordem de US$ 4,7 trilhões (sobre o sumiço anterior de US$ 9,8 trilhões no estouro da megabolha da ''irrational exuberance'').
No mesmo tranco, o ouro escalou 32%. O pulo da onça foi de US$ 282 para US$ 372. Como é historicamente sabido, o ouro é o último refúgio dos poupadores em pânico. E o petróleo? Nadou de braçada. A valorização da fedorenta mercadoria não deixou por menos de 77%, disparando de US$ 19,10 para US$ 33,60. Sem mistério. O petróleo é a moeda da guerra. Da guerra não confessada pelo controle das reservas do em-se-furando-dá do Golfo Pérsico.
Esses dados cruzados indicam que o estouro do novo conflito tópico ou estanque nas areias que servem de mortalha à Babilônia não deve acrescentar maiores danos à economia das nações. Um novo aumento do petróleo teria curta duração, com seu ''spot'' na moita. Exploradores, exportadores, processadores e distribuidores sabem que um barril ''Brent'' acima de US$ 35, por meses a fio, atiçaria nova onda global de conservação e de substituição dentro da matriz energética de países ricos, pobres e (sub)emergentes.
Nas duas primeiras ondas de conservação e de substituição, o barril despencou, a dólar corrente, de US$ 47, em 1981, para nada além de US$ 11, em 1998. Sem contar a perda de ''market share'' do raivoso cartel da Opep. Na oferta mundial, o bloco teve de baixar a crista, em duas décadas, de 64% para 28%. No período, a dependência brasileira refluiu de 83% para 19%.
O problema da guerra está na indústria do pretexto, amoitada nos porões da especulação financeira sem bandeira. Haveria mordidas adicionais nos juros cobrados de mutuários de alto risco. Ou nova tranca na oferta de empréstimos por credores externos azedados por mais uma golfada da tal de aversão ao risco.
SECOS & MOLHADOS
Marca-passo - Senhor dos mercados, Alan Greenspan visitou o Senado, terça-feira, e suspirou fundo: a) a economia americana voltaria a pisar no freio em caso de quebra-pau teleguiado nos céus de Bagdá ou pra lá de Bagdá; b) o atual estado de ''vigília coletiva'' pelo disparo do primeiro míssil já estaria retardando a recuperação do PIB de US$ 10,4 trilhões.
Nem tanto - Em tempo: a economia americana não está em recessão nem saiu para o acostamento do crescimento zero, vulgo estagnação. O obeso PIB cresceu 2,8% no ano passado (já em clima de guerra de boca) e desfila torque para até 3,5% agora em 2003, nos cálculos do próprio Fed.
Carambola - E os impactos da guerra alheia aqui no Brasil ainda em transe? O governo Lula não ousa falar em Plano B para o amortecimento dos estilhaços no petróleo, no crédito e no câmbio. O melhor estudo sobre a matéria, entre nós, é o do Banco Santos. Amanhã, nesta coluna.
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