JOELMIR BETING
Não fizemos um programa econômico para ganhar a eleição. Fizemos um programa econômico para governar o Brasil.
Antônio Palocci, ministro da Fazenda
Pão amargo de ontem
Nas entrelinhas do suspiro político do ministro Antônio Palocci, um chega-pra-lá intelectual nos chiados da oposição emergente ao governo Lula. Oposição que não está na oposição de fachada do partidarismo fisiológico botocudo. Já imaginaram explicar a um dentista desengajado que a eleição indireta de José Sarney para a presidência do Senado acaba de desfilar o endosso de vitória esmagadora do Palácio do Planalto - com Lula lá?
A verdadeira oposição ao governo Lula mora no distrito histórico (ou histérico) do próprio PT no poder o ninho dos radicais de primeira e de segunda levas. Com uns e outros ainda destilando a cultura política dos anos 60, made in Moscou, Pequim, Tirana, Praga e Havana.
Nada de novo na frente ocidental. Desde que Lula Cuba virou Lula Duda, ainda na arrancada do primeiro turno, sabia-se: 1) que o comprometimento ideológico com a ruptura do modelo que aí está teria de ser renegado já no palanque, bem antes da irrupção no Palácio; 2) que tal decisão promoveria fraturas expostas, sim, mas não dos frágeis fundamentos do sistema, mas dos velhos postulados do partido; 3) que os radicais indignados fariam silêncio no rodapé do palanque, mas muito barulho no corredor do Palácio.
Bingo! O governo Lula acumula capital político no Congresso sem maioria, mas queima preciosa munição política nos tratos da rebeldia intestina. Analistas do ramo já estão resumindo o noticiário do imbróglio (de resto, inaudito na política verde-amarela de tédio) em radicais versus liberais. Dentro do partido e dentro do próprio governo.
Os radicais do PT brandem o livrinho vermelho do catecismo timbrado A Ruptura Necessária. Os liberais do PT preferem reeditar o comunicado oficial Carta ao Povo Brasileiro. Neste segundo documento, o aviso prévio de julho de 2002 aos eleitores, aos mercados e aos litigantes distribuídos por pelo menos 6 facções petistas raivosas: a) o Brasil que pode ser feito é desgraçadamente bem menor que o Brasil que deveria ser feito; b) ainda assim, o discurso do palanque tem de ser bem melhor que o provável recurso do Palácio; c) na curtida práxis da democracia representativa, partido é partido e governo é governo.
E coma-se o pão amanhecido. Para este primeiro governo PT, tal como se daria em um terceiro governo PSDB (sem FHC), a estabilidade monetária é o fator condicionante; o crescimento econômico, o fator condicionado. Ou ainda: até para relançar o PIB na órbita natural de 5% a 7% ao ano, torque mínimo para a expansão sustentada do emprego, do salário e do consumo, tem-se de executar a cirurgia sem anestesia do tripé reformista: a previdenciária, a trabalhista, a tributária... entre outras reformas horizontais e verticais não menos abrasivas.
Secos & molhados
Vespeiros
O duro é que continuamos reféns de penadas legiscrativas que se revelaram inviáveis até mesmo a um modelo neoliberal dito importado. O presidente Lula, no repasse em bloco de todas elas, deve ter suspirado, ontem, a seus ministros, na Granja do Torto: Dá pra tomar uma AmBev antes?
Paciência
Pelo sim, pelo não, há que se manter a economia e a sociedade sob o triplo tacão do arrocho monetário, do garrote tributário e do sufoco orçamentário. O ajuste fiscal, no conceito do superávit primário das contas do setor público consolidado, sobe para 4,25% do PIB. Mais severo que o aperto recorde de FHC, de 3,91% em 2002. E sem pressão do FMI.
Até quando?
E o que dizer do imexível crédito bancário mais curto e mais caro do mundo? Ou da sanha da nossa carga fiscal escandinava com retorno social moçambicano? Modelo neoliberal, uma ova!





