''Cá entre nós: crédito pessoal com juros de até 325% ao ano é assunto para o Banco Central ou para a Polícia Federal?''

José Maria de Jesus, prestamista inadimplente

Usurabrás S.A.

Governo Lula eleva juros para segurar inflação. Manchete da semana passada no Brasil e em Wall Street. Quem diria? Também para a doutrina econômica do novo PT, só a contenção do crédito, do consumo, da produção, do salário e do emprego tem força para recolocar a carestia nossa de cada dia na jaula de um dígito anual.

Eis aí um verdadeiro estelionato eleitoral. Tenho na memória chipada de minha estação de trabalho todos os discursos e entrevistas de campanha dos líderes do PT e caronistas de chegada. Papagaiou-se de fevereiro a outubro que o Brasil de FHC não passava de um vassalo do FMI, vestido de fantoche do neoliberalismo e de factóide da globalização.

Economistas do PT proclamavam em ensaios, simpósios e seminários que a ''austeridade monetária'' de Malan & Cia. era obra e desgraça da banca internacional, a serviço da especulação financeira sem bandeira e sem fronteira. Decretava-se nos palanques televisivos que a hora do ajuste de contas dos brasileiros encalacrados com os banqueiros desalmados soaria ao clique do último voto nas urnas eletrônicas de 27 de outubro.

O discurso eleitoreiro, robustecido pelo decisivo Efeito Duda, avisava ao tal de ''mercado'' que o arrocho monetário, bem mais que o garrote tributário, passaria a ser tratado, já na ressaca da posse, em janeiro, como veneno puro disfarçado de remédio duro. A ordem do salvacionismo petista era meridiana, nas palavras do próprio Lula: ''Temos de levar este país a pagar menos juros aos especuladores e mais salários aos trabalhadores'' (14/10/2002).

All right! Na primeira penada monetária da ''nova economia'' do governo Lula, semana passada, simplesmente aumentou-se a aflição dos aflitos. A taxa básica de juros, que já esfola o Estado e estiola a Nação, voltou a subir. Agora, com Meirelles & Palocci, tal como teria sido com Fraga & Malan.

Se já era nosso o crédito bancário mais curto e mais caro do mundo - um dos dois continua errado: ou o Brasil ou o mundo. Com Lula lá no Guaíba ou com Lula lá em Davos, tanto faz. O Brasil acaba de errar o caminho e voltar pra trás.

Enquanto isso, a Usurabrás S.A., ''holding'' da pusilanimidade monetaróide, vai extraindo do fígado da população movida a crediário (sem alternativa e sem transparência), juros médios anualizados de 88,4% no crédito pessoal em banco, de 117% no crediário em loja, de 221% no cheque especial (capital de giro da classe média), de 234% no cartão de crédito (ou cartão de agiota?) e de 325% no empréstimo ''fácil'' das financeiras periféricas. Uau!

Secos & Molhados

Sai debaixo

A Usurabrás S.A. esclarece, candidamente: os juros são altos porque a inadimplência é recorde. Quem paga em dia tem de pagar em dobro pelos que deixam de pagar ou atrasam o pagamento. A pontualidade é castigada, sobre ser feita de privação e renúncia.

Como é que é?

Quer dizer: uma ''práxis'' bancária ofídica jura por todos os juros que não é a usura que explica o calote, e, sim, o calote é que justifica a extorsão. Algo como sustentar, em simpósio médico, que a febre é a causa da infecção.

Vermelhão

Pesquisa da Anefac revela que as despesas financeiras já devoram 32% do orçamento doméstico da classe média paulistana. Na classe pobre, a coisa pode flutuar acima de 60%.

Promessão

Aumentar juros na base para convalidar a usura na ponta é uma decisão que recongela a economia e decepciona a cidadania. Em especial, os que votaram em 10 milhões de novos empregos até 2006.

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