''O mercado cambial é uma atividade especulativa. Nada tem a ver com o curso da economia real.''

Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia



Mcdollar na mosca

Lembram-se do McDollar? Ele está de volta na tabela de indicadores globais da revista inglesa The Economist, câmbio de referência na posição de 15 de janeiro. Milhares de empresas em meio mundo levam o McDollar a sério para o planejamento estratégico de seus negócios. Afinal, trata-se da única moeda global digna do nome.

Moeda global? Sim, primeira e única. Ela expressa, ainda que de maneira imperfeita ou rarefeita, a paridade real do poder de compra das moedas nacionais nos respectivos mercados internos. Ou seja: uma taxa de câmbio próxima da economia real, descontaminada da especulação de mercado que perverte e subverte o cálculo econômico lastreado em câmbio convencional.

Pelo McDollar, por exemplo, o real está excessivamente subvalorizado em relação ao dólar. Algo parecido com 48% nesta decolagem do governo Lula.

Quem nos garante isso? O sanduíche Big Mac, produto globalizado, porque padronizado em 123 países onde a megarrede McDonald's já fincou sua bandeira. Padronizado nos ingredientes, nos processos e nos serviços. Com descarte, claro, dos diferenciais de tributos e encargos em cada país.

Em dólar, pela Paridade do Poder de Compra (PPP, em inglês), o Big Mac está valendo US$ 1,38 em média no Brasil contra US$ 2,65 nos Estados Unidos. Ou contra US$ 3,20 na Inglaterra ou US$ 3,37 na Suíça. A libra inglesa e o franco suíço estão, portanto, um tanto quanto supervalorizados em relação ao dólar. Ou ao euro.

A metodologia da paridade do poder de compra das moedas nacionais tem a perícia de garantir que o dólar na mão do brasileiro adquire mais coisas no Brasil que o mesmo dólar na mão do americano nos Estados Unidos. Ou ainda: para o americano, o Brasil está 48% mais barato, em dólar, que os Estados Unidos. Ainda bem que vivemos no Brasil...

Pela mesma carpintaria cambial, o peso argentino tem mais poder de compra na Argentina que o real no Brasil. O peso precisa do equivalente a US$ 1,18 para comprar o mesmo Big Mac (contra US$ 1,38 do real). Com o detalhe oblíquo: pelo McDollar, o peso está subvalorizado em 55%, ante 48% do real.

Pelo sim, pelo não, o mercado de câmbio igualmente admite que o real está desvalorizado pelo exagero. Tanto assim que a pesquisa semanal do Banco Central, junto aos cem maiores bancos e consultorias financeiras, projeta para a travessia de 2003 um dólar pela mediana de R$ 3,50. Essa projeção, que se sustenta ao redor disso desde dezembro, leva o pessimista a murmurar: ''O dólar não vai mais baixar.'' E o otimista, a suspirar: ''O dólar não mais vai subir.''

Tradução: o dólar pode permanecer no alto, mas não mais em alta. Essa estabilidade cambial seria decisiva para recolocar o IPCA gregoriano na jaula de um dígito. Digamos: no teto oficial de 9%. O problema remanescente dessa acomodação do câmbio em pavimento assim tão desgarrado (pela métrica do McDollar) é do pelotão de empresas brasileiras que hoje devem em dólar e faturam em real.

Secos & Molhados


Irrationale

No mais, tome rediscussão sobre a tirania do câmbio sem juízo na vida dos poupadores, dos consumidores, dos trabalhadores, dos produtores, dos fornecedores, dos distribuidores, dos credores, dos devedores. A taxa de câmbio lotérica é o crachá virtual da ''irrationale'' que (des)governa a economia real.

Alto bordo

Com a globalização das empresas e dos mercados, a taxa de câmbio ganhou importância estratégica para a competitividade das nações. A China, correndo por fora, fez do yuan superdesvalorizado (em 61% pelo McDollar) um ''dumping'' cambial por sobre os mercados alheios.

Até quando?

Até quando a civilização do terceiro milênio, por absoluta falta de imaginação (ou de desconfiômetro), continuará desfalcada de um valor basilar de referência para o cálculo econômico de todas as coisas?

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