''A única diferença entre Palocci e Malan está no sotaque e na barba.'' João Batista Oliveira de Araújo (Babá), deputado federal (PT-PA)

Novo disco voador

Em matéria de econometria esotérica, no limite da chutometria encharcada de álgebra, o Banco Central acaba de assinar uma obra-prima, em três movimentos: 1) se a inflação contentar-se com 8,5%, o PIB deve fechar o ano com expansão de 2,8%; 2) se a inflação não passar de 6,5%, daí haverá recessão de -1,6%; 3) e, se a inflação deixar-se aprisionar em 4%, a depressão nacional chegará a 7,3%.

Simulação do gênero deveria ficar confinada a papers acadêmicos de circulação interna, para consumo de economistas fechados em redoma de vidro. E não, como ocorreu agora, aparecer grifada em carta pública do presidente do Banco Central (Henrique Meirelles) ao ministro da Fazenda (Antônio Palocci) - para leitura nas entrelinhas do tal de ''mercado'' (Wall Street).

Que correlação científica seria esta entre um IPCA de +4% e um PIB de -7,3%? Ou entre um IPCA de +6,5% e um PIB de -1,64%, com precisão de segunda casa à direita da vírgula? Em meteorologia, isso equivaleria a mandar o seguinte aviso aos navegantes: em dezembro de 2003, haverá na Região Sudeste do Brasil uma precipitação pluviométrica diária pela média de 1,9 mm, produzindo uma temperatura média de 17,4 graus de mínima a 29,7 graus de máxima. O leitor apostaria seu milharal nisso?

Em 2000, o IPCA deixou-se rebaixar de 9% para 6% e o PIB subiu de 0,7% para 4,4% - com viés de baixa no primeiro e viés de alta no segundo para a travessia do primeiro trimestre de 2001. Isso ocorreu entre nós a despeito do estouro da megabolha das bolsas em todo o mundo, do pouso forçado da águia americana, da desaceleração da economia mundial, do colapso consumado da Argentina e do rescaldo dos nossos choques cambiais e dos tarifaços gerais no ''grande ajuste'' de 1999.

Lembram-se? Os arautos da ''inflação de demanda'' enfiaram a viola caipira no picuá e ficaram na muda ou na moita até as recargas combinadas dos preços administrados pelo governo e dos preços dolarizados pelo mercado desde julho do ano passado. Remarcação de uns e de outros que nada teve a ver com curvas de demanda ou corcovas do PIB.

A propósito, na virada de 2001 para 2002, a carta pública do presidente do Banco Central (Armínio Fraga) ao ministro da Fazenda (Pedro Malan) não se comprometeu com números, mas assumiu tendências então juradas realistas. Textualmente: ''Para 2002, considera-se baixa a probabilidade de que os choques inflacionários de 2001 se repitam com a mesma magnitude.''

De fato, a magnitude dos choques não foi a mesma. Foi duas vezes maior. A inflação não andou de lado e muito menos respeitou o teto das metas renegociadas com o FMI. O IPCA escalou para 12,53% e o IGPM cravou a bandeira em 25,30%.

Secos & Molhados

Mistério

Pela política monetarista de Brasília, clonada da escola monetarista de Chicago, fica difícil explicar tanto a desaceleração inflacionária de 2000 (com reaquecimento da economia) como a reaceleração inflacionária de 2002 (com desaquecimento da economia). Alguém se habilita?

Dogmatismo

A incompatibilidade agora trombeteada entre expansão da economia e contenção da carestia faz o jogo enviesado de um falso dilema paralelo ou siamês: o de que a economia só voltará a crescer quando o controle da inflação deixar de ser uma obsessão palaciana. Ou palocciana.

Mudou muito

Recessão não derruba inflação (Argentina 2002). Expansão não provoca inflação (Brasil 2000). A formação de custos, margens e preços da economia moderna deixou de ser um fenômeno monetário ou mera relação demanda/oferta. O resto é academicismo anacrônico.

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