''Nós não abrimos as torneiras quando os preços estão altos. E não as fechamos quando os mesmos preços estão baixos.''
Tom Cirigliano, porta-voz da Exxon Mobil

Barris versus fuzis

Está escrito: a paz no Oriente Médio estará selada no ano 2997. Mas alguns pessimistas sustentam que a fraternidade entre os homens de má vontade, que se matam em nome de Deus, talvez só ocorra ali pela altura do décimo milênio. Claro, se até lá sobrar algum litigante para empunhar a bandeira branca.

O problema é que repousa sob o oceano de areia, que vai do Norte da África ao Golfo Pérsico, um oceano de óleo que responde por nada menos de 72% das reservas mundiais de petróleo. Reservas comprovadas até junho de 2001. Logo, estamos tratando de um meganegócio que mistura barris de petróleo com barris de pólvora.

O resto é especulação de um mercado tipo bolsa. Afinal, como escrevia Daniel Bell, petróleo não é dólar; petróleo é poder. Com o advento da Opep, tanto mais: a confraria das grandes produtoras privadas sediadas nos dois lados do Atlântico Norte deixou-se atropelar pelo cartel das estatais opepianas centradas no Oriente Médio. Umas e outras dando carona a novos ''players'' estatais e privados, germinados na ainda União Soviética, na África Negra, na América Latina, no Mar do Norte, no Mar da China.

Pois cá estamos girando de novo a rosca sem-fim do ''oil shock'' intermitente made in Oriente Médio. Agora, por iniciativa de Bush, de míssil em riste na cara de Saddam. Sim, o Iraque está há 11 anos fora do mercado, punido pela frustrada invasão do Kuwait. Mas basta a ''expectativa de guerra com aviso prévio'' para tumultuar os negócios do petróleo em todo o mundo.

Felizmente, não mais se concebe um repeteco dos choques de 1973/74 e de 1979/80. No primeiro, a cotação média do barril subiu sete vezes em apenas sete semanas. No segundo, mais quatro em três semanas. Algo como remarcar a besuntada mercadoria de US$ 30 para US$ 210 até meados da próxima Quaresma.

As maiores petrolíferas do mundo, de domínio privado, não se emocionam com o fogo fátuo desta nova alta dos barris em pé de guerra. Sabem que meio mundo já aprendeu a conservar petróleo, a substituir petróleo, a pesquisar petróleo, a condenar petróleo. Barril acima de US$ 35, para um custo de extração pelo ''mix'' ponderado de US$ 5,70 (AIE/Opep), não seria sustentável.

Resultado: petrolíferas americanas e européias, prospectadas pelo Lehman Brothers, avisam que não vão aumentar a produção este ano para faturar esta alta friccional dos preços. A Shell antecipou-se e já rebaixou em 16,5% o orçamento de exploração para 2003.

Exposição de motivos: as empresas privadas pensam em 2010 ou 2020 e não nos espirros e esbirros de Bush, Saddam, Bin Laden ou Chávez. Elas preferem iniciar contatos para novas parcerias com a Rússia e a China e para nova investida na África Ocidental. Com sobras, ora, pois, aqui para o Brasil.

Secos & Molhados

Azul-marinho - O certo é que barril pela faixa sustentável de US$ 25 dá um dinheirão até mesmo para petrolíferas pachorrentas. Wall Street espera dessas empresas o anúncio de lucros até 50% maiores no quarto trimestre de 2002, já sob o efeito Chávez/Saddam. Não por acaso, elas fizeram recompras de ações da própria grife nestas últimas quatro semanas.

Linha de fuga - O jornal The New York Times pespega um editorial incisivo: desfazer-se progressivamente dos suprimentos made in Opep deveria ser não apenas uma conveniência da indústria privada do ramo, mas uma estratégia ostensiva do salão oval da Casa Branca de susto. Isso incluiria também o ''óleo fiel'' da Arábia Saudita.

Cá entre nós - E o Brasil ainda do tamanho da Petrobrás? Temos de prosseguir na escalada da auto-suficiência, já consolidada a diversificação de fontes alheias. Nossa guerra é com o déficit cambial e não com toda essa falta de juízo global.

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup