''A esquerda perdeu sete décadas discutindo as contradições naturais do capitalismo, sem atentar para as contradições letais do comunismo.''

Alberto Moravia (1900-1990), escritor italiano


Pombas & bombas

Dos jornais: Lula critica países ricos que gastam bilhões em guerras enquanto milhões passam fome pelo mundo afora. Nas manchetes: ''O mundo precisa de paz'', diz Lula. Esse foi o ''lead'' favorito das chamadas sacadas dos discursos do presidente brasileiro nestes fóruns globais de Porto Alegre e de Davos.

Algo parecido tem sido dito, entre bombas e pombas, pelo papa João Paulo II, pelo embaixador Pelé, pelo filósofo José Maria de Jesus e pelo conselheiro Acácio Bó.

O problema de fundo é que os gastos per capita com guerras e guerrilhas sem contar as rapinas do crime organizado ocorrem em proporção até dez vezes maior, segundo a Cruz Vermelha Internacional, nos países mais atrasados da face da Terra. Atrasados até por causa disso.

Já imaginaram o que se gasta em matanças alternadas nos conflitos tribais da África Negra? Alguém já contabilizou quantos bilhões de petrodólares foram torrados no Oriente Médio em guerras tópicas, levantes e atentados mútuos? Pois os orçamentos militares dos países da região consomem mais de 25% do PIB ralo contra menos de 3% do PIB na média dos 30 países mais ricos do mundo (OCDE).

Sem entrar no mérito político da justificativa do que não pode ser justificado, os ricos gastam com os respectivos aparatos militares nada mais que um residual do portentoso excedente econômico. Ainda assim, de olho gordo menos na capitulação dos inimigos virtuais e mais nos retornos tecnológicos, econômicos e sociais do complexo industrial-militar e serviços afins.

O Império Soviético, de base estritamente militar, veio abaixo exatamente quando o orçamento esgarçado do urso não mais teve como igualar-se, em cifrão ou em canhão, ao orçamento ainda mais dilatado da águia. Façanha do caubói Ronald Reagan. Bastou anunciar a duplicação dos ''gastos com a Defesa'', em nome do novo ''front'' tecnológico da Guerra nas Estrelas e lá estava o Kremlin jogando a toalha e agitando a bandeira: ''O mundo precisa de paz.''

Lembram-se? A União Soviética teria de elevar o orçamento de sua máquina de guerra fria, patrocinadora de guerras quentes confinadas e teleguiadas, de 17% para 29% do PIB. Os Estados Unidos, de 4% para 6%. Com agravante: os americanos sacam a arma e a munição do ativo ocioso de uma sociedade já construída, enquanto os soviéticos ruminavam nas botas e nas ogivas cotas crescentes de privação e de renúncia de uma sociedade ainda por fazer. Aguentou menos de meio século.

É bom não perder de vista o que está sendo sonegado há mais de uma década pelos intelectuais ideologicamente desempregados. A União Soviética envenenou-se com a própria saliva. Ela desmoronou da noite para o dia, sem aviso prévio. E, sem levar um único tiro, um único livro, um único manifesto, uma única passeata, uma única greve-geral. Um espanto!

SECOS & MOLHADOS

Reversão

Na queda dos muros, em 1990, o orçamento militar de Washington estava, a dólar de 2001, em US$ 314 bilhões. Havia o risco de um levante de opinião pública contra a manutenção de um poderio bélico que então se descobria, repentinamente, inútil e desagradável.

Que fazer?

A ''pax'' americana não perdeu tempo. Para preservar a verba, mandou Saddam invadir o Iraque... Pela televisão, ao vivo, Saddam teve de bater em retirada, dando sobrevida aos fundos do Pentágono por tempo indeterminado. Ou até sua remoção cirúrgica do Palácio de Bagdá.

Recarga

Quase esgotado o Efeito Saddam, eis que explode no ventre do próprio Pentágono, literalmente, o Efeito Bin Laden. Evento dramatizado a mil pela dantesca destruição das torres de Wall Street. Como o Efeito Bin Laden rendeu menos do que se supunha, o jeito é reconvocar o efeito Saddam, poupado em stand by.

Por que não?

A versão acima pode não ser a verdadeira, mas é verossímil. A verba de 2003 subiu para US$ 337 bilhões.

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