''Nosso subdesenvolvimento resulta de uma cultura da abundância que já dura meio milênio. Fiadora de nossa síndrome do desperdício.'' Juliano Bastide, sociólogo

Da força e da luz

Dizem que o brasileiro só pega no tranco. Bastou um primeiro choque do apagão punitivo que pode não ter sido o último para que o consumo residencial de energia elétrica passasse a desligar a tomada do supérfluo ou do desperdício.

Sobre a fuzarca energética até 2000, gatilho do apagão em 2001, o consumo médio das famílias brasileiras em 2002 voltou aos níveis de 1994. Sem mistério: nada menos de 65% dos consumidores residenciais mantiveram, por livre e espontânea vontade, em maior ou menor escala, os ''hábitos de contenção'' ou de conservação de eletricidade que lhes havia sido imposto pelo programa de racionamento compulsório decretado em junho de 2001.

Palavra da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em pesquisa domiciliar realizada por encomenda da Eletrobrás e divulgada na semana passada. Apurou-se que, no consumo doméstico da força e da luz, durante o racionamento, houve racionalização dos usos, com eliminação dos abusos, em 91% dos lares. A poupança média, no apagão, chegou a picos mensais de 23%.

A pesquisa da FGV revela ainda que o porcentual de famílias que passaram a adotar o critério da taxa de consumo de energia na decisão de compra de novos aparelhos eletrodomésticos escalou de 8%, antes do apagão, para 58% no ano passado. Os fabricantes do ramo cuidaram de responder a essa nova demanda nas linhas 2002/2003.

Bem, na minha casa a coisa desfila o seguinte balanço: redução no consumo de 52% a partir do apagão e de 37% nesta altura do calendário - sobre a média das contas de luz de 2000. Acabamos com as lâmpadas incandescentes, que consomem 70% de energia para calor e 30% para luz. Substituímos máquinas e equipamentos energívoros e terceirizamos nossos dois freezers para a padaria, a quitanda, o açougue, o supermercado.

Ah! Parei de fazer a barba com a torneira aberta e aprendi a tomar banho japonês: meio minuto de chuveirada, cinco minutos de esfregação a seco e meio minuto de enxaguada geral. No relógio da Eletropaulo: consumo de 1 minuto. E com o sabonete durando sete vezes mais.

Para os técnicos da Eletrobrás, já está feita a ignição de uma cultura de poupança de energia ao menor sinal de algum tarifaço aí pela proa. Claro, hipótese absolutamente descartável em um governo Lula. Aposta-se, bem ao contrário, em certa repressão tarifária.

Vem aí a reestruturação do Ministério de Minas e Energia. A ordem política é trazer de volta para a instituição certas funções que foram drenadas para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Anatel). Entre outras, as tarefas de planejamento estratégico, atribuição natural do ente governo e não de uma agência reguladora.

No apagão, o Ministério se descobriu mero coadjuvante da Câmara de Gestão da Crise de Energia. E está falando fino desde então.

Secos & Molhados

Nova casa

Secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Maurício Tolmasquim diz que a reformulação da casa é de caráter estrutural e operacional. Sem ter como romper a camisa-de-força do orçamento já sacramentado.

Nova cara

Há que se redesenhar o modelo do setor elétrico. O programa de privatização não conseguiu returbinar a contento o capital privado na área nem teve como remover vazios e desvios das estatais. Além de ratear nas rampas da termoeletricidade suplementar.

Nova crise

Radar do mercado, o Operador Nacional do Sistema (ONS) refaz a advertência de outubro de 2002: sem uma nova chuvarada de investimentos públicos e privados no setor, a cavalo de novos marcos regulatórios confiáveis, estaremos contratando, agora em 2003, um segundo apagão para 2006. Ano de (re)eleição, pois não?

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