''Sempre que a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda.'' John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês

A roda é outra

Está-se aqui, no ''front'' da guerra santa contra a inflação, propondo-se a reinvenção da teoria monetária? Não. Mas há que se ligar o desconfiômetro: overdose de austeridade monetária, de caráter necessariamente recessivo ou punitivo, nada tem a ver com a estabilidade de custos, margens e preços da economia moderna.

Para a contenção dos preços com ou sem a compressão dos custos o que eu chamo de Efeito Carrefour tem mais força que o badalado Efeito Selic. Ou seja: não é o crédito mais curto e mais caro do mundo, abaixo de 27% do PIB, que está há oito anos e meio cercando o frango doido do IPCA em campo aberto. É a nova realidade das relações de mercado que realiza essa periclitante tarefa.

Nova realidade? Sim, como nunca antes, aqui dentro e lá fora, custos, margens e preços estão espancados pela combinação de choques encavalados de competição nos mercados com choques encavalados de modernização nas empresas. A modernização reduz custos e a competição trava margens e preços, transferindo a maior parcela dos ganhos de eficiência da economia dos cofres dos sócios para os bolsos dos clientes. A ordem é ganhar menos por unidade de produto sobre cada vez mais por volume negociado.

Esse ''novo mercado'' tem como principal reator um fenômeno recente, de base tecnológica: a informação de mercado, antes dominada e/ou manipulada pelo lado de quem produz e vende, passou a ser compartilhada, massivamente, desde a década passada, pelo lado de quem compra ou consome.

Informação é poder. No caso, poder de seleção, de decisão ou de exclusão. Informado até mesmo em tempo real sobre todas as opções de mercado, o cliente tornou-se exigente, seletivo e infiel. Seja ele uma grande empresa ou uma dona de casa. Nos mercados que já operam em e-commerce, inaugura-se no processo econômico a exótica figura do leilão reverso pelo lado da demanda. Fecha o negócio quem faz o lance do melhor ''mix'' de valor pelo menor custo.

Fiz essa experiência em agosto do ano passado. Pela madrugada, de um sábado chuvoso, fui ao banheiro, sentei no trono e com um laptop no colo naveguei quatro sites de e-commerce, fisguei sete opções de compra e bati o click na terceira da série. Uma opção customizada a meu juízo, feita de um ''mix'' de valor ponderado que incluía, além do preço (promocional), também a marca, a qualidade, a pós-venda, o prazo de entrega, o prazo de financiamento, o meio de pagamento, o brinde e o agrado. Na terça-feira de manhã, lá estava no portão de minha casa a esteira de ginástica assim adquirida.

Pelo velho mercado, essa operação online de 11 minutos na madrugada de sábado teria me custado uma dezena de conversas com parentes, amigos e colegas de trabalho, visitas a sete lojas, consultas a sete catálogos de fábrica... Sem tempo e sem tutano, eu teria ou desistido da esteira de ginástica ou embarcado na primeira abordagem - sem ter como encaixar meu máximo de valor pelo mínimo de custo.

Secos & Molhados

Sem Selic

Será que a Selic sabe disso? Será que ela explica o não repasse, em 2002, de um IPA de 35,4% para um IPC que se contentou com 12,2%? Será que a Selic alcança os 93% do consumo total das famílias ainda sem cobertura do sistema de crédito?

Sem peso

Será que a Selic teria como segurar na jaula da recessão purgativa os preços administrados pelo governo ou dolarizados pelo mercado? Pois uns e outros responderam por quase dois terços do núcleo do IGP-DI de 26,4% no ano passado.

Sem nexo

A verdade é que se recessão derrubasse inflação, dogma acadêmico aceito com resignação bovina pelos ''formadores de mercado'', como explicar o ''paradoxo'' de 2000? O PIB escalou de 0,7% para 4,4% (com viés para 5,5%), enquanto o IPCA resvalava de 9% para 6% (com viés para 4,5%).

Sem tango

E o que dizer do ''paradoxo'' argentino? Em 2002, o PIB caiu 14% e o IPC subiu 42%. Friedman explica? Nem Freud.

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