''Sob tremenda vulnerabilidade, Brasil só deve pagar o que pode. Ocorre que o Brasil não pode pagar nem metade do que deve.''

George Soros, in Londres, 12/10/2002


De volta ao futuro

Bancos e consultorias já têm o novo balanço do primeiro ano do governo Lula lá na ponta de dezembro. Mais que isso: a bola de cristal dos cenaristas de prontidão igualmente alcança os principais indicadores macroeconômicos no fechamento do ano que vem. Uf!


Já versei sobre a esotérica matéria nesta coluna, mas vale o replay: o mercado financeiro obriga-se a fazer apostas pesadas em um futuro que não pode ser previsto. Os bancos compram futuro, vendem futuro, repassam futuro, estocam futuro. Contratos de monta já estão sendo fechados para dezembro de 2004.

Logo, o negócio é dar uma espiada na projeção coletiva do setor para as variáveis de base do tipo câmbio, juros, inflação, balança comercial, déficit externo, contas fiscais, evolução do PIB... Projeção remontada em bloco a cada semana por um convênio do mercado com o Banco Central. Que se obriga a divulgar a tabela das medianas esperadas pelos agentes financeiros em toda manhã de segunda-feira. Esse relatório semanal atende pelo nome de ''Focus''.

Descartada a chutometria em expedientes do gênero, o ''Focus'' ganhou visibilidade política no ano passado exatamente por qualificar e quantificar expectativas do mercado financeiro em relação a dois ''fronts'' explosivos: a) o da campanha eleitoral, com escalada de um Lula ''hostil''; b) o da (des)estabilização da economia, com deterioração da credibilidade interna e externa do País.

Bem, entre mortos e feridos, escapamos todos. Até mesmo o megainvestidor George Soros, filantropo nas horas vagas, acaba de dar as luvas à palmatória: ''Agora, sim, estou otimista com o Brasil.''

O certo é que a transição política, democraticamente exemplar, fez-se escoltar por uma transição econômica não menos civilizada. A tal de ''ruptura'' realmente ocorreu. Mas não a do Brasil ou do modelo e, sim, a do próprio Lula e do partido.

Que o diga a política monetária anoréxica. Em sua primeira reunião no governo Lula, hoje, o Copom ensaia manter a taxa básica de juros, a Selic, no altiplano de 25% ao ano (enquanto o Procon avisa que a taxa de ponta no cheque especial acaba de subir para 188% ao ano...). Voltarei ao mavioso assunto amanhã.

Fiquemos com o balanço antecipado do primeiro ano do governo Lula, expresso no ''Focus'' desta semana. O esfalfado PIB não passará de 2%. O estressado IPCA fechará em 11,2%. O distressado IGPM cravará 15%. A Selic refluirá piedosamente de 25% para 20%. Algo a ver com certa estabilidade cambial. Para o mercado, o dólar vai bater nos R$ 3,60 no próximo Natal, com taxa média no ano de R$ 3,50.

Esse vaticínio de tamanha calmaria cambial também guarda relação com um saldo gregoriano de US$ 15,5 bilhões na balança comercial, com injeção continuada de US$ 13 bilhões das transnacionais e com um déficit externo em conta corrente de apenas US$ 5,7 bilhões. Merreca.

Secos & Molhados

Linha dura

Na percepção do mercado, o governo Lula acaba de renovar as promessas do batismo para com a estabilidade monetária e a austeridade fiscal. O superávit primário, medido pelo último furo da cinta orçamentária, leva jeito de emplacar 3,85% do PIB. O que rebaixaria o déficit nominal (incluída a conta de juros) para 3,3%.

Pedra mole

Vai daí que a promessa eleitoreira da expansão da economia e do emprego se descobre apoiada em pedra mole. Não há como crescer além de 2% ao ano com crédito bancário criogênico e com garrote tributário patogênico. O médico Antônio Palocci, que está na cabeceira da Economia, sabe disso.

Marcha lenta

Tanto assim que o mesmo ''Focus'' já desfila o balanço de toda a travessia de 2004, com acanhada convalescença geral. O PIB subirá para 3% e o IPCA baixará para 8%. A Selic recuará para 16,75% e o dólar fechará em R$ 3,75. Algo parecido com mais dois anos de FHC. Certo?

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