JOELMIR BETING
''Sempre estudo economia todo santo dia. É para não ser iludida pelos economistas.''
Joan Robinson (1903-1983), economista inglesa
A bolsa furada
No ano que passou e já foi tarde, a Bovespa acumulou perdas de 17% em real e de 51% em dólar. Referência: em dólar, a queda no ano foi de 16,8% na bolsa de Nova York. Ou de 31,5% na bolsa eletrônica da Nasdaq, epicentro da megabolha global que estourou em março de 2000.
O atoleiro da Bovespa começou precisamente na derrubada das torres virtuais da irracional exuberância made in Wall Street. Do alto de uma estrepitosa valorização anual de 152% em 1999 (sobre perdas de 34% em 1998), a bolsa brasileira acaba de fechar todo um triênio no vermelho, com quedas de 10,7% em 2000, de 11,2% em 2001 e de 17% em 2002.
Resultado: o valor de mercado em bloco das 228 empresas mais negociadas em São Paulo, acompanhadas pela Economática, acaba de fechar o ano em R$ 369 bilhões. Houve aumento conjunto de valor de mercado para ações de mineração, siderurgia e exportação. Mas as perdas foram expressivas para ações de energia e de telefonia. Pois até os bancos entraram nessa fria, com valor em bloco caindo de R$ 67 bilhões em janeiro para R$ 58 bilhões em dezembro.
Outro indicador melancólico é o do movimento diário negociado em bolsa. O giro médio no ano foi de R$ 561 milhões, o menor em sete anos. A média diária estava em R$ 825 milhões em 1997, ainda antes da migração de boa fatia do mercado de São Paulo para Nova York. Nas asas da CPMF.
O contrapé da Bovespa igualmente se manifesta nas operações de abertura e/ou fechamento de empresas de capital aberto negociadas em bolsa. Ano passado, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registrou a abertura de apenas 15 empresas contra o fechamento de 43 delas. Em 2001, a coisa já havia encolhido: 36 novos registros versus 55 cancelamentos.
Com o grifo: a quase totalidade dos novos casos de abertura limita-se às emissões de debêntures e não propriamente de ações.
Tanto assim que em apenas quatro empresas, nada mais que quatro, abriram capital com ações em bolsa nos últimos cinco anos...
Pelo cheiro da brilhantina, as operações de fechamento de capital devem prosseguir agora em 2003. A suposição é dos técnicos da própria CVM. Algo a ver não só com o nanismo crônico do mercado brasileiro de capitais, mas também com as mexidas na Lei das Sociedades Anônimas, em vigor desde março.
Tais mexidas conturbaram ainda mais o ecossistema do capital aberto no Brasil, suspira Alfried Plöger, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca). Para quem ainda é muito alto nosso custo de abertura, bem acima da média internacional. Para variar.
Aplicação de risco, o mercado de ações, diz Plöger, tende a continuar no limbo em um Brasil que tem no financiamento ao setor público o sorvedouro de quase 60% da poupança financeira disponível na economia e na sociedade.
Secos & Molhados
Sem opção
A Bovespa pode reclamar dos furores da dívida pública, mas não dos humores da poupança privada. A renda fixa em banco não tem sido uma opção competitiva para os investidores em transe. Perde-se dinheiro também com aplicações financeiras convencionais.
Inventário
Quem deixou o rico pé-de-meia estacionado no dólar ganhou 52% em 2002. Se no ouro, 81%. Na renda fixa, os aplicadores não conseguiram sequer a reposição do IGP-M, que fechou em 25,3%. Os Fundos DI renderam 16,6% e os CDI, 18,8%. Sem contar o fiasco da caderneta. Com variação de 9,1%, perdeu até do IPCA de 12,5%.
Mistério
Perder dinheiro em renda fixa no Brasil é algo de embasbacar - quando na outra ponta do sistema financeiro os mutuários do crédito são esfolados pelos juros mais altos do mundo. A chave do mistério só pode estar, dentro da taxa final, no somatório do guloso spread do sistema com a cunha fiscal do governo.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





