''Em planos de estabilização, a minoria dos perdedores tópicos tem mais força política que a maioria dos ganhadores difusos.''

Pérsio Arida, economista

Ano do dragão


''O controle inflacionário é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado.'' Assinado: Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda. ''No controle da inflação faremos tudo o que for preciso. E tudo é tudo.'' Assinado: Antônio Palocci, ministro da Fazenda.

Falam os números. De 1985 a 1994, os dez anos anteriores à estréia do economista e professor Pedro Malan no comando da equipe econômica do governo FHC, a inflação brasileira (IPCA) desfilou garbosamente a taxa média de 747% ao ano. Ou de 19,5% ao mês. Com direito a pico mensal de 82,4% em março de 1990, último mês do governo Sarney.

Com o lembrete sinistro: inflação de até 82,4% ao mês ao fim e ao cabo de quatro choques heterodoxos no sistema de preços e contratos de toda a economia brasileira. Uma sucessão escatológica de congelamentos e intervenções durante o governo Sarney, o estadista.

Com espaço para um absurdo bloqueio do estoque da liquidez da economia (''corralito''), de caráter punitivo, no governo Collor, o demolidor.


Nos oito anos da era FHC, de 1995 a 2002, já com real a bordo, a taxa média do IPCA não passou de 7,2% ao ano. Sem congelamento, sem intervenção, sem tabelamento, sem CIP e sem Sunab.


Resultado tanto mais expressivo quando se leva em conta que os preços ao consumidor que mais se deixaram remarcar no período foram justamente os preços ou tarifas ainda controlados pelo próprio governo.

Para o IPCA acumulado em torno de 97% nestes últimos oito anos, o transporte coletivo (sob autoridade municipal) emplacou 203%. A gasolina e o gás de fogão, redolarizados, cravaram 213% e 452%, respectivamente. A energia elétrica contentou-se com 254% e a telefonia fixa não deixou por menos de 509%.

Pelo sim, pelo não, o IPCA de quase três dígitos no acumulado do governo FHC, com impulso de banguela de 12,5% no fechamento no índice anual de 2002, significa que estamos em processo de estabilização, mas não ainda de estabilidade. Ou seja: o dragão está no laço desde 1994, mas continua soltando fogo pelas ventas.

O programa de estabilização, inaugurado em março de 1994, pela introdução da URV, teve como efeito líquido precioso a ruptura da correia de transmissão da inflação dita inercial. Força inercial usinada pelos reatores da (re)indexação geral de preços e contratos. Não raro com correção diária vestida de dolarização informal.

A desindexação voluntária e progressiva da economia (processo ainda não concluído nos preços contratados) teve como poderosos aliados os choques encavalados de competição nos mercados e de modernização nas empresas. Esta, rebaixando custos na base da produção. Aquela, transferindo ganhos para a ponta do consumo.

Secos & Molhados

E a Selic?

Bem, dizem que a estabilização tem tudo a ver com a austeridade monetária (crédito curto e caro). Mais que desindexação, modernização, competição... Discordo. O arrocho bancário serviu não para conter a inflação, mas para atiçar a recessão.

Sem pegada

Afinal, o que pode fazer a Selic para segurar preços administrados pelo governo e preços redolarizados pelo mercado? Absolutamente nada. Pois administrados e dolarizados devem ter respondido, em 2002, por dois terços no núcleo do IPCA.

Tudo é tudo

Se o ministro Antônio Palocci diz que está a fim de fazer tudo (e tudo é tudo) para recolocar o ICA no declive, seria bom que começasse pela revisão de um monetarismo dogmático, autor de uma overdose inútil sobre ser desagradável. Afinal, o novo ministro está acima da patrulha acadêmica. Não é economista. É sanitarista.

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