JOELMIR BETING
''Fernando Henrique teve algo de Getúlio e de Juscelino, com pitadas de Harry Truman e de Winston Churchill.''
Albert Fishlow, brasilianista americano
Balanço positivo
Deu no The New York Times (NYT) de ontem: Fernando Henrique Cardoso foi um grande presidente do Brasil. Em oito anos de mandato, com eleição e reeleição já no primeiro turno, o sociólogo e ex-exilado político obteve reconhecimento mundial pela sua capacidade de tripular o Brasil por mares agitados nunca dantes navegados.
Na matéria assinada por Larry Rother, o mais influente jornal do mundo desfila as sete virtudes capitais da Era FHC. Primeira: colocou na jaula a besta-fera da carestia, quebrando-lhe a golpes de URV a correia de transmissão da correção automática de preços e de contratos, vulgo inflação inercial. O que era inflação de um dia chegou a virar inflação de um ano (o IGP-M não passou de 1,8% em 1998).
Segunda: amorteceu choques externos aterradores. Do México à Argentina, passando pela Ásia, pela Rússia ou pelos Estados Unidos, o Brasil desviou-se de crises globais recorrentes. O que não lhe poupou, no ano que termina, a injusta condição de bola da vez de uma especulação cambial sem bandeira e sem-vergonha.
Terceira: embarcou no câmbio flutuante sem maiores traumas no primeiro mês do segundo mandato. E flutuação cambial é uma solução e não um problema. A desvalorização exagerada de 53% nesta travessia de 2002 foi um acidente de percurso, mesmo sob a blindagem do FMI e com todo o sistema financeiro já devidamente saneado desde 1997.
Quarta: deu total transparência às contas públicas, assumindo um modelo de demonstrativos tido no mundo como o mais abrangente, sobre ser o mais transparente. Com toque de estadista, no grifo do NYT, Fernando Henrique Cardoso ordenou a exumação de clamorosos esqueletos contábeis federais e estaduais amoitados por uma verdadeira Estelionatobrás S.A. Algo parecido com metade da dívida pública recorde aqui na ponta de 2002.
Quinta: engrossou a voz do Brasil nos fóruns internacionais. O que significa a pavimentação das trilhas da diplomacia econômica do governo Lula, com sua agenda digna de um trabalho de 12 Hércules já a partir de fevereiro. Entre outras cordilheiras, as das negociações multilaterais da OMC e da futura Alca.
Sexta: produziu a melhora de importantes indicadores sociais, malgrado as aparências em contrário. De 1995 a 2000, última série disponível, os brasileiros em situação de pobreza ou penúria refluíram de 42% para 33% da população total. De 1994 a 2001, os gastos sociais cresceram 81% em valores deflacionados. Na Educação, o número de crianças sem escola baixou de 21% para 3%. Na Saúde, a mortalidade infantil até um ano declinou de 39 para 32 por mil.
Sétima: consolidou a democracia brasileira um tanto quanto desajeitada na escalada da Nova República e traumatizada na remoção cirúrgica de Collor & Cia. A crônica política sustenta que FHC pecou por excesso de conciliação e não pela falta dela. Uma abertura weberiana que culminou agora com o singular gabinete de transição de governo, em lei. Único no mundo.
SECOS & MOLHADOS
Pela metade
A Era FHC deixa igualmente como legado um programa de privatização tido como politicamente inimaginável por volta de 1994. Um programa feito pela metade e que hoje exibe vazios e desvios menos pela metade realizada e mais pela metade protelada.
Por fazer
Faltou tutano político para a reforma tributária adequada e para a reforma previdenciária corajosa. Sobrou arrocho monetário, agravado pelo garrote tributário um e outro sabotando a retomada do crescimento econômico. Que se daria sem ruptura da estabilização (ainda a caminho da estabilidade).
Veredicto
Nas resenhas da Era FHC, até aqui publicadas por jornais e revistas, tem-se um balaço do positivo maior que o inventário do negativo. Até por vislumbre do que de ruim ocorre aí pela nossa vizinhança castelhana.
Prioridade
O governo Lula terá de pegar no ar a peteca da reforma do Estado brasileiro. E, na pesada agenda social, dar carona a um tratamento de choque na (in)segurança pública.
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