JOELMIR BETING
''A Ciência é aética por natureza. A Economia, por necessidade. A Política, por conveniência.''
Joelmir Beting, in Na Prática a Teoria é Outra (1973)
Saddam para se coçar
Quem não tem problema inventa problema. É da própria condição humana. Na arena mundial, em tempo de refluxo do fim do mundo, pós derrubada de muros, de pontes e de torres, reinventa-se o problema Saddam a partir do salão oval da Casa Branca de tédio.
O novo arroto belicista, de estofo bushista, mais parece uma recorrente exposição de motivos para um não enxugamento do orçamento militar ainda hoje aviado para a confrontação terminal de uma guerra fria da águia contra o urso, agora que a águia tem o tamanho de um condor e o urso já virou bode.
O perigo amarelo da China saiu para o acostamento de uma transformação econômica sem paralelo - até por se tratar de uma perestroika sem glasnost sob as botas do PC chinês. A China, que ainda está comunista, é caprichosamente o país até aqui mais favorecido pela globalização capitalista.
Neste fechamento de 2002, Pequim avisa aos litigantes da refrega global que acaba de totalizar, no ano, uma recepção de capitais produtivos (das múltis) da ordem de US$ 57 bilhões, 19% acima da transfusão de 2001. Ou perto de 25% do bolo dos investimentos externos diretos no planeta dos emergentes. Aqui na América Latina, a fatia conjunta é de 12% e os ingressos do ano exibem retração de 27%.
Com o grifo de Antonio Correa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira para Estudos das Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet): as empresas estrangeiras já instaladas na China respondem por 23% do PIB industrial e por 48% das exportações totais. Um embarque, este ano, recalculado para US$ 272 bilhões. Até 1982, nada além de US$ 5 bilhões por ano.
Uma remoção cirúrgica de Saddam, engatilhada por Washington com ou sem a adesão da Otan, alcançaria a extroversão chinesa pelas linhas tortas de uma nova desaceleração mundial feita de incerteza ou de medo. O petróleo não seria um problema, mas uma solução. A China tem petróleo de sobra e bem que gostaria de uma revalorização transitória da fedorenta mercadoria.
Para o Brasil, os impactos negativos de um ataque digital a Bagdá espalhariam cascas de banana nas rampas da recuperação econômica aviada pelo governo petista que vem aí. A gente perderia fôlego de fora para dentro na estagnação global e purgaria nova recarga dos preços dolarizados dos nossos próprios derivados de petróleo, localizados no núcleo do IPCA. Um duplo efeito de caráter estagflacionista.
Claro, com todos os chacais da moeda já babando de gozo na expectativa de uma nova fuzarca cambial importada. A guerra pode ser até da variedade relâmpago. O petróleo pode não se sustentar acima de US$ 30. Mas estará reinstalada a pegajosa ''aversão ao risco'' em relação à periferia emergente, Brasil à frente.
SECOS & MOLHADOS
Com guerra
O Iraque não pesa no mercado global do petróleo. Por exclusão forçada. Mas tem massa crítica para infernizar todo o Oriente Médio, agora que Bin Laden, mais que o próprio Saddam, trouxe das cavernas a ''guerra santa'' contra o Grande Satã. Uma invasão do Iraque jogaria o barril de petróleo, que sempre se confunde com o barril de pólvora, aí pela faixa de até US$ 40.
Sem guerra
Se o Big Brother contentar-se em continuar pressionando emocionalmente Saddam por tempo indeterminado, emitindo para o mercado sinais de um sonoro blefe de boca, aí a cotação do petróleo voltará a acomodar-se em torno de US$ 25 para a mediana de 2003.
Com reza
O jeito, pois, é rezar para que os outros parem de inventar problemas. Já bastam os nossos, que não são poucos.
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