''Quando a oposição chega ao governo ela descobre que as coisas estão bem piores do que ela mesmo vinha dizendo que estavam.''

John Fitzgerald Kennedy (1920-1963), presidente dos EUA


O apronto geral

Equipe já convocada e escalada, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva reúne hoje todos os seus ministros para um primeiro apronto geral do governo zero-quilômetro. O novo campeonato vai começar daqui a cinco dias, sob enorme expectativa das tribunas, das arquibancadas e das gerais da vida brasileira.

O desafio é telúrico. Para 71% dos brasileiros, segundo pesquisa do Sensus, por encomenda da Confederação Nacional de Transporte (CNT), Lula & Cia. vai realizar um governo ótimo ou bom. Um cheque visado emitido pela cidadania antes mesmo da escalação completa do Ministério. Ou ainda sem o conhecimento do ''plano de vôo'' para o Brasil 2003/2006.

O dado relevante: a fé pública da ordem de 71% em um governo ótimo ou bom suplanta em 10 pontos porcentuais a votação obtida por Lula no segundo turno. Debruçados sobre esse par de números, alguns analistas políticos ousam afirmar que, para quase três quartos da população, o Lula Ligth do palanque vai passar o bastão a um Lula Superlight no Palácio.

A composição do Ministério e a escolha de certos nomes do primeiro escalão, mais que o discurso pós-eleição, robustecem a tese de que Lula e o PT não vão mudar o Brasil o Brasil é que já mudou Lula e o PT. Mudança ocorrida na campanha, sem a qual o metalúrgico do ABC estaria purgando hoje, em Havana, sua quarta derrota consecutiva na rampa do Palácio.

A única diferença, para melhor, é a ênfase do novo governo na agenda social. Claro, renovados os compromissos com a estabilidade monetária e com a austeridade fiscal, fatores condicionantes para a retomada do crescimento econômico e da redistribuição de renda.

Na pesquisa do Sensus, os brasileiros estabelecem a seguinte escala de prioridades para a agenda social: 1) redução induzida do desemprego; 2) execução imediata do Fome Zero; 3) resgate de choque da segurança pública; 4) recauchutagem geral dos serviços de Saúde; 5) revolução na Educação e pela Educação.

A agenda social dá carona a cinco outras frentes de batalha: a) transporte coletivo; b) habitação popular; c) saneamento básico; d) proteção ambiental; c) lazer, esporte e cultura.

Em paralelo, a agenda econômica do próximo governo, que se pretende ótimo ou bom, exige outros cinco murros em ponta de faca: 1) controle da inflação; 2) queda dos juros; 3) reforma tributária; 4) crescimento econômico; 5) manutenção de contratos.

O curioso é que não se vislumbra em sondagens semelhantes do Ibope, do Criterium e do próprio Sensus uma cobrança popular em relação a duas matérias abrasivas: reforma previdenciária e reforma trabalhista. Ambas chegadas ao risco de ruptura de direitos adquiridos, na percepção da maioria.

SECOS & MOLHADOS

Desgaste

A vitória de Lula era esperada desde abril. Poderia ter ocorrido já no primeiro turno. Sem o desgaste político das concessões eleitoreiras que estigmatizam o segundo turno em qualquer tempo ou lugar. Algo a ver com a poluída negociação de nomes para o Ministério e de mesas para o Congresso.

Surpresa

Ainda assim, causou surpresa geral a escolha não negociada de certos nomes para o primeiro escalão. Em especial, a de Henrique Meirelles para o Banco Central. Metade da equipe já escalada não teria a menor chance de convocação em qualquer aposta coletiva na altura de outubro.

Cobertor

Paradoxalmente, a expectativa de um governo ótimo ou bom poderia contratar uma frustração coletiva tão precoce quanto injusta. Mas o governo Lula parece já nascer envolto em cobertor de uma ressuscitada auto-estima nacional. Por algum tempo, nada de reclamar do governo. Combinados?

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