''Ministro da Fazenda obriga-se a descascar abacaxi com o nariz. O problema é que ele nunca consegue e sai sempre arranhado.''
Roberto Macedo, economista

Ainda nada de novo

O mercado financeiro, com poder de formular profecias auto-realizáveis sobre câmbio e sobre juros, avisa que o dólar fecha o ano em R$ 3,50 e leva jeito de se contentar com R$ 3,71 no último dia do ano que vem. Tradução: o governo Lula está ''precificado'' no câmbio para uma Ptax mediana de R$ 3,6550 em 2003. Bom proveito.

A nova projeção do mercado financeiro para a variação cambial nos próximos 12 meses está no relatório semanal ''Focus'', do Banco Central, divulgado ontem. Com ela, bancos e consultorias estão dizendo que o dólar vai continuar no alto, mas não mais em alta.

Boa notícia para quem exporta. Notícia ruim para quem importa. Ou, pior ainda, para quem deve lá fora. Analistas do ramo sustentam que, tecnicamente, sobre a cotação de R$ 2,32 em janeiro, o dólar deveria estar, nesta véspera de Natal, em torno de R$ 2,88.

Para a competitividade externa da economia brasileira, o câmbio está de bom tamanho. Para a estabilidade interna dos índices de inflação e das contas fiscais do governo, a mediana esperada para 2003 não carrega maiores riscos ou desvios. A bolha já passou e o realinhamento altista de preços já está quase concluído pelo mercado. Ainda que não pelos preços administrados pelo governo.

Vai daí que o setor financeiro, no mesmo ''Focus'' de ontem, indica para 2003 um IGP-M ponta a ponta de 14,9%, contra 25,6% agora em 2002. A projeção do IPCA também vai do aclive de 12,4% em 2002 para o declive de 11% em 2003. A queda esperada do IGPM é maior que a do IPCA porque o primeiro leva em conta a variação dos preços no atacado (peso 60) e não apenas no consumo. Ou seja: o IPCA não mais está grávido do IGPM. Saravá!

Ainda assim, IPCA de dois dígitos é uma convivência nada agradável. Na primeira revisão das metas acordadas com o FMI, em fevereiro próximo, o governo Lula espera ''baixar'' o IPCA gregoriano para 6,5%. De tal sorte (ou azar) que a taxa básica de juros, vulgo Selic, que fecha o ano em 25%, talvez caia para 20% só lá na ponta de 2003. Austeridade monetária também em governo do PT.

Haverá igualmente, por esta penúltima cenarização do ''Focus'' no ano, um ajuste continuado e não menos severo nas contas externas. O déficit em conta corrente está recalculado para US$ 8,9 bilhões em 2002 e para exatos US$ 6 bilhões em 2003. Algo parecido com 1% do PIB. Esse mesmo déficit, nos Estados Unidos, fecha o ano em 4,7%. Aqui, estava acima de 5% em 1998.

O superávit da balança comercial e a transfusão de capital produtivo das empresas transnacionais vão continuar a pulverizar o Risco Brasil no balanço de pagamentos. A reabertura da banca internacional para créditos ao setor privado também deve vestir a camisa de nossa tranquilidade externa em 2003.

Tem-se como certo que o Brasil vai precisar de uma ração suplementar de US$ 43,4 bilhões no próximo ano. Sem tocar nas reservas, que ensaiam virar o ano ao redor de US$ 34 bilhões.

Secos & Molhados

Marcha lenta - Ao que parece já picado pela mosca amarela da ortodoxia econômica, o governo Lula não terá como relançar a expansão sustentada do consumo, da produção e do emprego. A taxa de crescimento do PIB está desenhada para 2% em 2003.

Ponto zero - A população economicamente ativa deve crescer 1,9% em 2003, nas projeções do ''pop-clock'' do IBGE. Isto significa que teremos em 2003 outro 1,6 milhão de adolescentes em busca do primeiro emprego.

Para 2004 - A retomada do crescimento econômico só terá sentido se lastreada pela recauchutagem da estabilidade monetária - fator condicionante. E só terá sustentabilidade no tempo, a partir de 2004, se reciclada por reformas de base ainda em gestação no Planalto.

Sem bengala - Nada de rezar pela recuperação conjunta dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão. Temos a obrigação de andar com as próprias pernas e de voar com as próprias asas.

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