JOELMIR BETING
''Nas relações econômicas e comerciais entre as nações não há lugar para amigos nem inimigos. Só para negócios.''
John Foster Dulles (1897-1968), chanceler americano
Luzes no túnel
O futuro do comércio internacional, como nunca antes, passa a ditar o futuro de cada economia nacional nestes tempos bicudos de globalização não mais reversível. E o futuro do comércio internacional tem a ver com a quebra ou não do impasse instalado no megabloco dos mercados agrícolas.
No plano econômico, com sobras para a arena política, a economia do ''agrobusiness'' ainda é o pau-da-barraca das nações desenvolvidas. E, claro, a bóia salva-vidas dos países emergentes e submergentes, maioria dos quais ainda no estágio da América rural do século 18. E com a subnutrição endêmica martirizando um terráqueo em cada cinco.
A questão de fundo está no paradoxo temporal da globalização sem fronteiras para uma agricultura ainda aprisionada por barreiras de mercados nacionais estanques. Em especial, antigas barreiras tarifárias e não-tarifárias ainda não rebaixadas pelos países desenvolvidos. Proteção reforçada por uma vasta usinagem de subsídios fiscais, incentivos financeiros, repasses tecnológicos e facilidades operacionais.
Diferentemente do restante do nosso vale de lágrimas, o planeta da opulência tem opções de Midas para a economia rural. Entre outras: 1) o parque industrial poderoso e diversificado; 2) a economia de serviços em expansão continuada; 3) a produção e o desfrute de novas tecnologias; 4) a exploração direta, a domicílio, de mercados alheios por mais de 54 mil empresas internacionais, multinacionais e transnacionais; 5) fechando a roda, a estrutura de capital e de crédito abundante, barata e oferecida.
O planeta da emergência, no duplo sentido, ainda tem seu principal reator na cadeia de valor da economia plantada na terra. Duas dezenas dos quais, Brasil no meio, já ostentando elos do agronegócio tão eficientes (ou mais) que os dos países centrais. Mesmo sem os adubos do Tesouro Nacional e da logística integrada.
Aí é que entra o desafio inadiável da novel Organização Mundial do Comércio (OMC): a promoção pactuada, entre seus 143 países membros, de uma abertura progressiva dos mercados agrícolas e a redução fatiada dos subsídios que pervertem ainda mais o jogo bruto da concorrência entre nações.
Nesta travessia de dezembro, algo começa a faiscar na linha do horizonte da renegociação dos tratados globais da OMC, agendada para este quinquênio 2001/2005. Estados Unidos e União Européia, pela ordem, acabam de se comprometer com a futura oferta de acesso desinibido de terceiros aos respectivos mercados agrícolas.
A diplomacia econômica brasileira, que trabalha sete dias por semana nesse ''front'' sem bandeira, já emitiu sua primeira avaliação: a) as propostas americanas e européias são importantes, mas não suficientes; b) algumas dessas propostas são inaceitáveis e, outras, incoerentes.
Secos & Molhados
Primeira luz
Os Estados Unidos acabam de propor a abertura orquestrada dos mercados agrícolas. Com a ressalva: não pensam em dar o bom exemplo. Farão isso se os europeus (e japoneses) fizerem a mesma coisa, no mesmo prazo e no mesmo grau. Ou seja: só por um tratado multilateral da OMC, que é do ramo.
Segunda luz
A União Européia dos 15 (a caminho de 25) sai da toca e dá números aos bois: ela topa cortar 45% dos subsídios à exportação e 55% dos subsídios à produção. Mas só faria isso em prazo longo. Ela não se compromete com eliminação de barreiras tarifárias nem com a extinção de cotas de importação.
Terceira luz
Para a diplomacia brasileira, as boas intenções de ambos os lados podem ser meramente retóricas. Mas o anúncio delas, em tom oficial, não deixa de ser um primeiro passo para a quebra de um antigo impasse: a abertura agrícola deixa de ser um tabu. Um tabu dos ricos.
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