JOELMIR BETING
''Maior o juro, maior a dívida. Maior a dívida, maior o déficit. Maior o déficit, maior o risco. Maior o risco, maior o juro...''
José Alexandre Scheinkman, economista
Coerência no equívoco
Para os teólogos da doutrina econômica monetarista, a Terra é o centro do Universo e ao redor dela transitam, ordenadamente, o Sol e todos os astros e estrelas do Universo. Ciência pura.
Os monetaristas continuam jurando, por todos os juros, que só um choque de juros tem munição para recolocar na caverna da estabilidade interna da moeda nacional o dragão da carestia nossa de cada dia. E dá-lhe um potente jato de espuma Selic, de 25% ao ano, nas chamas ejetadas pelo IPCA de 12% nas barbas de Papai Noel.
A teoria é meridiana: juros elevados e prazos encurtados fazem do arrocho de crédito o melhor remédio, ainda que amargo, para amainar ou mesmo remover a febre alta dos preços sem juízo. Em que sentido? No sentido de que, sem crédito bom em banco e sem crediário fácil em loja, empresas produzem menos e famílias consomem menos.
E daí? Daí que, no encalhe induzido da produção, por retração forçada do consumo, os preços param de subir ou até mesmo começam a decair. Ainda que nessa queda a coisa assuma o rótulo de promoção (na alta leva o nome de inflação).
Ocorre que recessão por decreto nem sempre derruba inflação, assim como expansão da economia nem sempre eleva a carestia. Em 2000, câmbio livre já ajustado pelo mercado, afrouxaram o arrocho bancário para produção, giro e consumo e deu no que deu: nosso PIB sofrido cresceu de 0,70% para 4,40% no ano e nosso dileto IPCA baixou de 8,9% para 6%. Nossos monetaristas, intrigados, preferiram tomar chá de sumiço.
Este ano, aqui ao lado, a Argentina rumina uma recessão recorde de -14%, mas não desliga a tomada de uma inflação de 41%.
Os membros do Copom, domadores dos juros, apoiados por todos os monetaristas de convicção, têm alguma explicação para o Brasil 2000 ou para a Argentina 2002?
E mais: uma seleção de 25 países emergentes, todos com inflação anual de um dígito, desfila taxa básica média, em termos reais, de 1,4% ao ano. Ah! Com PIB médio de 5,4% e com crédito bancário ao setor produtivo acima de 50% do PIB. Aqui, nada além 26%. Sob tamanho arrocho bancário, sem paralelo no mundo, o Brasil deveria estar, não é de hoje, em estado de deflação - como reza o catecismo monetarista.
Faltaria perguntar: se juros abusivos seguram a inflação pelos chifres, de que juros estamos falando? Os da base ancorados pela Selic ou os da ponta aditivados pela usura? Se o consumo já está espancado por taxas de 130% ao ano no fogão a gás ou por até 180% no cheque especial para que elevar a Selic de 21% para 25%?
Ou ainda: o IPCA saiu do prumo pelo item alimentação. E desde quando a gente empina papagaio em banco ou assina crediário em loja para comprar açúcar de cana ou óleo de soja com aumentos no ano acima de 70%? Ah! Quanta monetarice!
Secos & Molhados
Dois terços
Tem mais: a Selic no alto ou em alta nada pode fazer para travar a remarcação dos preços administrados pelo próprio governo. Nem dos preços internos dolarizados pelas estatais do petróleo e da energia. Consta que, desde a abertura do câmbio, em janeiro de 1999, a massa de preços administrados e/ou dolarizados vem respondendo por até dois terços do núcleo do IPCA.
Pela culatra
A Selic empinada tem força, sim, para aumentar a sobrecarga financeira da dívida pública. De 18%, em outubro, para 25% agora em dezembro, a Selic amplia a dívida em R$ 19 bilhões, se mantida por aí no primeiro ano do governo Lula. Ou quatro vezes o orçamento do Fome Zero ainda não amarrado.
Equívoco
A terapia monetarista constitui um equívoco acadêmico. Ao espichar a Selic para 25%, o Copom está sendo coerente dentro desse equívoco. Apoiado pelo PT e pela CNI. Pode?
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





