''Os famintos jamais fizeram uma revolução. Os famintos simplesmente morrem de fome.''

Bruno Knies, antropólogo (citado por Madre Tereza de Calcutá)


O pouco é muito

Lembram-se do Natal Sem Fome? Bolado e tocado por Betinho, há exatamente dez anos, o movimento perdeu-se pelo caminho. Tal como se dá com todo projeto de matriz pessoal sem o amparo do apoio coletivo. Betinho não perdeu a batalha. Ganhou a guerra do bom exemplo e da palavra de ordem: ''Quem tem fome tem pressa.''

Eis que o governo Lula acaba de fazer do programa Fome Zero, e não só no Natal, o primeiro investimento do seu capital político de posse, que não é pouco. Partindo precisamente de um apoio coletivo sem paralelo em políticas sociais do setor público e/ou do setor privado, o Fome Zero, bolado e montado desde o ano passado pelo Instituto da Cidadania, vai decolar com orçamento demarcado e com respaldo, ali na frente, de recursos externos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

E não menos importante: o Fome Zero estará diretamente vinculado à Presidência da República, endereço da futura Secretaria de Estado de Segurança Alimentar e Nutricional. Cargo de bom tamanho para perfis como os do bispo Mauro Morelli, de Duque de Caxias; do ativista frei Betto; ou do próprio José Graziano, coordenador técnico do Fome Zero desde a primeira semente.

Reunião com o presidente eleito, segunda-feira, avaliou novas propostas de formato, de conteúdo e de operação para o Fome Zero. Está praticamente acertado que o programa fará uso de cartões eletrônicos a serem emitidos em nome de famílias cadastradas. São cartões intransferíveis que permitirão sacar até certo valor mensal em dinheiro vivo para a compra de alimentos. Incluído o danoninho da televisão, por que não?

O provável esquema preserva a liberdade de escolha do cadastrado que poderá usar o dinheiro vivo para a aquisição de qualquer outra coisa. De remédio a brinquedo. De cachaça a cigarro.

Sem intermediários da corrupção e da fraude que pegariam carona nos expedientes tipo cupom ou vale-alimentação. Com deságio.

Ocorre que programas comunitários já lançados, sob a forma de renda mínima ou renda-cidadã, demonstram que 70% dos recursos distribuídos vão mesmo para a aquisição de alimentos. Na primeira arrancada, o Fome Zero vai mobilizar cerca de R$ 5 bilhões. Falta definir o número dos assistidos e o valor de cada cartão. O primeiro perímetro já está mapeado: 13 municípios da região de Raimundo Nonato, no semi-árido do Piauí. Onde a mamadeira é feita de leite em pó made in São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Argentina ou Holanda. Com 32,4% de impostos a bordo.

José Graziano resume o desafio no tripé: 1) o Fome Zero não vai acabar com a fome em todo o Brasil; 2) o Fome Zero vai acabar com a fome dos assistidos pelo programa; 3) vai daí que o maior erro que se pode cometer em políticas sociais é o de não se fazer nada quando só se pode fazer pouco. O pouco nosso é o muito deles.

Secos & Molhados

Emergencial?

Programas da variedade Fome Zero são adotados em meio mundo em caráter emergencial. Tudo a ver, em especial, com situações de cataclismos naturais, de conflitos bélicos e de guerras tribais. Entre nós, o Fome Zero ainda não terá o crachá de emergencial. Terá de ser permanente até prova em contrário.

Desigualdade

O Fome Zero não vai acabar com a miséria nem atacar as causas da miséria. Ele se contenta em atacar os efeitos da exclusão, mitigando a fome de uma parcela crescente dos excluídos. Nossa desigualdade social não foi improvisada. Ela tem cinco séculos de estrada minada. Não pode ser eliminada em cinco anos. Talvez, nem em cinco governos.

Pelo mínimo

Não há atalho sequer pelo salário mínimo de lei. Que alcança apenas 7% dos com-carteira e 11% dos sem-carteira. Abaixo do mínimo vegeta 34% da força nacional de trabalho.

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