JOELMIR BETING
''Não gosto de ver gente respeitável dizer que a única maneira de reduzir a inflação é aumentar os juros.''
Antônio Ermírio de Moraes, empresário
Duplicata? O que é isso?
Pela última vez no ano, o Brasil que trabalha, a exemplo do Brasil que especula, entra em vigília cívica de 48 horas no rodapé do Copom do Bacen, ventre da Selic, movida a IPCA. Tradução: reunião de dois dias do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil para ajuizar uma nova alta na taxa básica de juros, vulgo Selic, em nome da guerra nada santa contra a inflação, dito IPCA.
Primeira questão de fundo. A desgarrada da carestia, desde agosto, tem a ver com bolhas cambiais e choques tarifários. É caso típico de inflação de custos. E, ao que consta na literatura econômica, o purgante da austeridade monetária (crédito mais curto e juro mais alto) só deve ser aviado para surtos aparentes de inflação de demanda a do nível de procura por bens e serviços igual ou maior que o nível da oferta efetivamente disponível.
Não é o quadro clínico do IPCA 2002. Dois terços do núcleo dele resultam de reajustes de preços administrados e de preços (in)devidamente dolarizados os dos exportados, estranhamente, bem mais que os dos importados. Pois os preços em liberdade, não dolarizados, com peso 70 na estrutura do IPCA, têm a ver, humildemente, com o terço restante do mesmo IPCA.
Pois é. Preços ditados pelo governo e preços manchados de câmbio explicam 8,4 pontos porcentuais do IPCA de 12,6% estimado pelo mercado financeiro para o fechamento do ano. O mercado livre, tangido por choques de competição, ganhos de modernização, absorção de margens e rejeição de repasses na maioria das cadeias de valor, responde por apenas 4,2 pontos do índice cheio. Ou seja: dentro da meta inflacionária de 4,5% fixada no início do ano.
Segunda questão de fundo. Será que o controle da inflação no Brasil e no mundo resulta mesmo, nos últimos sete anos, de trancos de austeridade monetária e de neutralidade fiscal? Ou não seria de trancas no repasse de custos para preços por iniciativa dos clientes cada vez mais informados, seletivos, exigentes e infiéis?
Um dos novos paradigmas da realidade econômica já transfigurada é justamente este: não são mais os custos que fazem os preços para cima ou para baixo; agora, são os preços que fazem os custos invariavelmente para baixo.
A convicção acadêmica é dogmática por natureza e necessidade. Talvez em 2020 os monetaristas venham a dar a mão a essa palmatória. Ou antes, quem sabe já no governo Lula, suspira o empresário Antônio Ermírio de Moraes: ''Bastaria um par de ações no lugar de reuniões e mais reuniões. Primeira: sobretaxar os lucros dos bancos gerados por spreads obscenos. Segunda: submeter economistas do governo e da academia a estágios em empresas da economia real. No dia em que eles souberem o que é uma duplicata, estaremos todos a salvo.''
Secos & Molhados
Reta final
Decisão do Copom amanhã sobre a Selic (que subiria de 22% para 24% ou 25%) e sabatina hoje pelo Senado de Henrique Meirelles, indicado para o Banco Central, ditam nesta terça-feira o tal de ''humor do mercado''. Tem-se que, a partir de quinta-feira, haverá haverá uma distensão geral. Do Natal ao carnaval.
Precificado
Tanto assim que o mercado financeiro, na sondagem semanal do BC, divulgada ontem (Relatório ''Focus''), sustenta que o dólar fecha o ano cotado a R$ 3,60 (ontem já bateu nessa trave). O governo Lula está ''precificado'' no câmbio desde setembro. Algo parecido com R$ 3,70 lá na ponta de 2003.
Sem graça
Para o mercado financeiro, vamos fechar o primeiro ano do governo Lula com IPCA de 11% e IGP-DI de 14% (para um PIB de 2%). Isso dá liga com Selic de 19% e dólar pela mediana de R$ 3,65.
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