JOELMIR BETING
''Henrique Meirelles no Banco Central provoca inveja dos executivos financeiros e ciúme dos políticos carreiristas.''
Juliano Bastide, sociólogo
Sem mudar o jogo?
Boa notícia para todos os brasileiros que investem, produzem, empregam, trabalham, estudam e consomem. O mercado financeiro, o rabo que abana o cachorro, continua emburrado (ou emburrecido) com a escolha de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central do Brasil.
Engenheiro que não virou suco, virou o executivo financeiro de maior sucesso no Brasil e no exterior, Henrique Meirelles não poderia mesmo fazer o agrado de um ''modelo de negócios'' que não tem como admitir qualquer mudança nas regras do jogo bruto que estão ganhando. De goleada.
Motorista de táxi, de cabeça inchada, José Maria de Jesus me indaga pelo retrovisor: ''Por que os caras não gostaram de um banqueiro para dirigir o Banco Central do Lula? Deu hoje aí no rádio.''
Primeiro, porque Henrique Meirelles, 56 anos, não é um banqueiro. É um bancário. Com 30 anos de janela e de panela. Um bancário de sucesso: 1) primeiro brasileiro a dirigir um banco estrangeiro no Brasil; 2) primeiro estrangeiro a dirigir um banco americano nos Estados Unidos. É pouco?
Pois a gente conhece um torneiro mecânico acidentado que ajeita a gravata para assumir a Presidência do Brasil. Por delegação de 53 milhões de patrícios esperançosos por mudanças nas regras do jogo. E que acaba de escolher um médico sanitarista, Antônio Palocci, para o comando da política econômica no Ministério da Fazenda.
No leme da política monetária, Henrique Meirelles vai responder pela defesa da moeda nacional contra a corrosão que lhe está sendo imposta, de fora para dentro, pelos competentes e jovens ''operadores'' do tal de mercado que se diz técnico. E no qual a especulação, que é do ramo do risco, deu de entregar o bastão de ouro à manipulação do mercado - sem risco.
Um operador de mercado na presidência do Banco Central? Não. O gestor da política monetária deve ir bem além do papel de leiloeiro cotidiano de títulos e moedas em queda-de-braço com ''mesários'' empenhados, brilhantemente, em otimizar lances e ganhos para acionistas e clientes preferenciais. Totalmente de costas para a realidade econômica, social e política de um Brasil hoje refém desse cassino chipado que dá a volta ao mundo em um segundo.
O sistema financeiro não pode ser uma atividade-fim, movida a humores, pudores e rancores do dia. Ele tem de funcionar como atividade-meio a serviço da economia e da sociedade. Tanto mais porque, especulativo por vocação e necessidade, tem primado em cometer erros dramáticos de percepção e de avaliação de riscos alheios, sentados nos próprios.
Sim, os tais de ''operadores de mercado'' não conseguiram até agora mitigar nossos riscos, escandalosamente ''premiados'' nos juros, nos preços e no câmbio. Eles é que inventaram e estão faturando o Perigo Brasil, hoje o negócio mais rentável para o capital volátil sem fronteira nem bandeira.
Secos & Molhados
Da equipe
A ''operação de mercado'', em nome da autoridade monetária, é uma tarefa cada vez mais complexa e abrasiva. Não pode ser realizada por uma única cabeça, mas por toda uma equipe de técnicos altamente gabaritados. Para isso é que foi inventada a diretoria colegiada do Banco Central, cuja face mais visível chama-se Comitê de Política Monetária, o hoje popular Copom.
Da guinada
Requer-se, pois, do presidente do Banco Central atributos do tipo competência técnica de carreira, respeitabilidade profissional dentro e fora do Brasil, capacidade de formulação, de liderança, de delegação, de convencimento e de articulação. Em especial, quando se pretende adernar a política monetária do Brasil que especula para o Brasil que trabalha.
Da gandaia
Sim, o tal de ''mercado'' está mesmo de nariz torcido. Afinal, ele é o único ganhador líquido da demolição econômica do Brasil, produzida pela especulação cambial catastrofista de sua própria lavra. Ou larva.
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