''Bandeira, hino e moeda. Símbolos da pátria são.''

Friedrich von Hayek (1899-1992), Prêmio Nobel de Economia (1974)


Senhor da moeda


A escolha de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central (BC) é politicamente ousada. Ousada politicamente porque o nome escolhido foi pinçado, digamos assim, do partido de FHC e do hábitat do FMI. E porque foi escolhido justamente um ''banqueiro internacional'', segundo o nariz torcido da galera petista.

Vamos aos descontos. Henrique Meirelles, 57 anos, não é um banqueiro internacional. É um bancário brasileiro recém-aposentado e de grande sucesso na carreira profissional. Não contente em presidir um banco estrangeiro no Brasil, o Banco de Boston, foi o primeiro estrangeiro a presidir a matriz mundial de um banco americano, o próprio Boston.

Vestido o pijama lá, iniciou carreira política aqui. Vocação tardia experimentada no ''front'' de trabalhos sociais que desenvolveu à frente do Boston na sede brasileira, em São Paulo. Trabalhos que se alinharam no pelotão de frente do movimento da responsabilidade social das empresas e do voluntariado corporativo. Talvez tenha sido esse o principal quebra-gelo de seu nome nas bases do PT.

E a filiação ao PSDB de FHC ou de José Serra? Ela se deu em seu Goiás natal, onde um Meirelles ainda sem jeito e sem treino obteve mais de 130 mil votos para a Câmara Federal, maior votação do Estado. Para Lula e o PT, isso soma para o perfil que vinha sendo esboçado na seleção de nomes para o comando do Banco Central.

O perfil havia sido divulgado e ratificado na semana passada: o novo titular do BC teria de ser um profissional do mercado, com livre trânsito aqui dentro e lá fora. Um Fraga ampliado, fincado no tripé competência, liderança e articulação. Com certa dose de carisma, de opção ministeriável.

Verdadeiro retrato falado de Henrique Meirelles. Com o grifo: o Banco Central ganhou entre nós relevância técnica, ressonância política e visibilidade pública. Algo parecido com o que ocorre com o Fed, o banco central americano, sob a batuta de Alan Greenspan, dito ''o senhor dos mercados''.

No governo Lula, pretende-se que o presidente do Banco Central desfile o crachá, não de senhor dos mercados, mas de senhor da moeda. Ou como suspirou na véspera o futuro ministro da Fazenda, Antônio Palocci, principal interlocutor da futura autoridade monetária: temos de tratar a inflação em ambiente de tolerância zero e Zé Fini.

No mais, para Lula e a cúpula do partido, a carteirinha do PSDB não passa de um detalhe para todo um projeto de reconstrução nacional. Detalhe suficiente, porém, para provocar um interessante diálogo na tarde de ontem entre um líder tucano e um cacique baiano.

O tucano: ''Tenho duas notícias de última hora. Uma boa e outra má.'' O cacique: ''Solta a boa!'' O tucano: ''O Henrique Meirelles, aquele do Banco de Boston, será o novo presidente do Banco Central.'' O cacique: ''E qual é a notícia ruim?'' O tucano: ''Bem, o Lula e o PT estão montando uma bela máquina de governar e podem fazer um magnífico governo logo de cara. Já pensou nossas chances para 2006?''

Secos & Molhados

Carta branca

A ilação do tal de mercado, ainda ressabiado, na tarde de ontem: se Henrique Meirelles topou o honroso convite é porque deve ter obtido a promessa de que governará a moeda nacional com razoável grau de autonomia operacional.

Em gestação

Ocorre que essa autonomia, amarrada em lei, ainda está no ventre da arrastada tramitação do artigo 192 da Constituição de 1988, o que trata da regulamentação do sistema financeiro nacional. O Banco Central teria de ficar acima e ao largo do Palácio, do Tesouro, do Congresso.

Dúvida atroz

Sobrou para o mercado. Um governo petista retardatário estaria ideologicamente ''ecolojado'' para privar-se de alguma fatia do poder em terreno tão minado? O próprio Henrique Meirelles, deputado ainda não diplomado, terá de abrir mão do mandato popular. Tal como Antônio Palocci acaba de fazer com a prefeitura de Ribeirão Preto.

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