''Sabendo que a economia do Brasil é um caso de UTI, estou nomeando um médico para ministro da Fazenda.''
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito


Na UTI do FMI


Faltou dizer: a economia brasileira está internada na UTI do famigerado FMI. Com o qual o governo Luiz Inácio/José Inácio vai ter de conviver sob o mesmo teto de vidro ao fim e ao cabo de oito anos de passeatas petistas de refrão Fora FMI, Fora FHC!

Um médico no leme do Ministério da Fazenda. Qual é o problema? Um dos mais brilhantes economistas do século 20, ainda na ativa, o canadense John Kenneth Galbraith, 94 anos, escreveu, certo dia, que a administração econômica de uma nação é importante em demasia para ser deixada a cargo de sumidades da economia. Algo parecido alguém já dissera antes a respeito de generais e de guerras.

O certo é que Antônio Palocci, 42 anos, médico sanitarista, já foi testado e aprovado na gestão pública de matérias complexas. Duas vezes prefeito de Ribeirão Preto, pelo PT, não vacilou em fazer uso da autoridade profissional de sanitarista para simplesmente decretar a privatização do saneamento básico do então município mais próspero do Estado, dito ''Califórnia do Brasil''.

Já imaginaram o que foi privatizar o saneamento básico para meio milhão de pessoas em plena decolagem neoliberal da desestatização da Era FHC? No mesmo embalo, ainda pisando em ovos petistas, Palocci tratou de privatizar a telefonia de Ribeirão Preto. Sim, trotskista da barra Libelu e da facção ''O Trabalho'', Palocci foi o pioneiro da demolição orquestrada do monopólio estatal das telecomunicações, o do Sistema Telebrás, estrutura de padrão soviético. Ou seja: de costas para o mercado.

Quando deputado federal, o futuro ministro da Fazenda destacou-se nos debates da entalada reforma tributária assunto pelo qual diz cultivar ''enorme fascínio''. Bem-vindo seja!

A verdade é que Antônio Palocci revelou-se excelente articulador na melindrosa usinagem desta transição de governo, comprovando seus atributos de carreira: iniciativa, liderança, negociação. Tanto mais, operando nesse ''front'' político em nome de um partido compacto, raivoso, ainda constrangido, para não dizer ideologicamente distressado.

No mais, Eugênio Gudin (1886-1986), ministro da Fazenda de Café Filho (1954), era engenheiro. Credencial que não lhe impediu de figurar, desde os anos 30, com principal usineiro da doutrina econômica monetarista que não larga nosso osso até hoje. Gudin representou o Brasil na fundação do FMI (1944), mal acabara de autografar seu clássico Princípios de Economia Monetária (1943). Seu principal discípulo, Mário Henrique Simonsen (1935-1997), ministro da Fazenda do governo Geisel, também era engenheiro.

O superministro Roberto Campos (1917-2001), neoliberal antes do neoliberalismo, era teólogo e filósofo. E Pedro Malan, oito anos consecutivos no cargo? Ph.D. em economia, graduou-se mesmo foi em engenharia elétrica. Quase morreu de inveja de Pedro Parente na gestão da crise do apagão.

Secos & Molhados

Doutores

O leme do Ministério da Fazenda já foi empunhado por advogados ilustres, todos eles chegados a tratados de doutrina econômica. Entre outros, Rubens Ricupero, Marcílio Marques Moreira, Dílson Funaro, Celso Furtado, Octávio Gouvêa de Bulhões, San Thiago Dantas, Ciro Gomes, Joaquim Murtinho, Rui Barbosa...

Economistas

Dos economistas em estado puro, que já responderam pelo cargo, com maior ou menor exposição, a galeria inclui Zélia Cardoso de Mello, Maílson da Nóbrega, Luiz Carlos Bresser Pereira, Ernane Galvêas e Antonio Delfim Netto.

Quem é quem?

Difícil seria instalar, nesta altura do calendário, um médico, um advogado, um engenheiro ou mesmo um economista acadêmico no comando do Banco Central. O perfil está desenhado: tem de ser um profissional de mercado, com trânsito aqui dentro e lá fora. De preferência, com passagem anterior pelo próprio Banco Central. Que tal?

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