''A probabilidade de a inflação ser banida da economia é a mesma da composição de um dicionário resultar de uma explosão na tipografia.'' Bernard Baruch (1879-1965), economista americano

As pontas soltas


Nas bases da poupança, o brasileiro fecha o ano perdendo 2% na caderneta. Nas pontas do crediário, o mesmo poupador subtraído, vestido de Papai Noel, vai ter de encarar juros anuais de 130% na compra de um eletrodoméstico. O consumidor argentino, no fundo do poço, encara juros anuais de 30%. O americano, 6%.

Fica realmente difícil explicar a José Maria de Jesus, prestamista inadimplente, essa alquimia financeira: como transformar a captação de depósitos a taxas negativas em aplicação desses mesmos depósitos a taxas extorsivas. A distância abissal que separa os juros de base dos juros de ponta faz da intermediação financeira no Brasil o melhor negócio do mundo. Talvez só perca em ''spread'' para o tráfico de drogas.

Um negócio tão lucrativo que dentro da taxa final de juros, a do tomador esfolado, há lugar para os ganhos líquidos dos bancos, os ganhos líquidos das lojas e os impostos ocultos do governo.

E os riscos? Bem, os riscos já estão devidamente blindados, com sobras generosas, no ventre dos juros. Convencionou-se até mesmo esclarecer em relatórios solenes que os juros estão no alto e em alta por culpa da inadimplência montante da desavisada clientela.

Ou seja: não é o crédito curto e caro que provoca a inadimplência; é a inadimplência que justifica o crédito caro e curto. Combinados?

Essa poderosa indústria da usura recepciona o Natal 2003, nos terminais do varejo, com a imposição de juros anuais que vão de 54% nos automóveis a 174% nos produtos de decoração. Ou de 63% nos pacotes de viagem a 115% nos eletroeletrônicos, compulsão nacional.

Ou de 105% nos bens de informática a 160% nos aparelhos de ginástica.

Os juros no crédito ao consumo, em bancos e lojas, são patrulhados, mensalmente, pelo Procon (defesa dos consumidores) e pela Anefac (executivos financeiros). Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Anefac e coordenador da pesquisa mensal da entidade, isola o DNA da usura no rodapé de um Direito Econômico tão pomposo quanto omisso: a completa ignorância (ou indiferença) do mutuário em aritmética financeira rudimentar.

Levantamento da Anefac é assim resumido por Miguel Ribeiro de Oliveira: 95% dos crediaristas de loja confessam não saber (nem querem saber) os juros amoitados nas prestações. E os 5% dos que afirmam conhecer as taxas não conseguem calcular os juros nos prazos contratados. Em sendo assim, diz ele, ''fica fácil ao lojista vender crédito caro disfarçado de produto barato''.

A psicologia do mutuário facilita as coisas. A quase totalidade se contenta em estimar, no ato da compra financiada, o tamanho da prestação mensal dentro do orçamento doméstico. Algo a ver menos com os preços e juros e mais com os prazos.

Secos & Molhados

Bifurcação

De janeiro a setembro, as 50 maiores empresas privadas do setor produtivo lucraram, em bloco, exatamente R$ 2 bilhões. No mesmo período, os 50 maiores bancos privados somaram ganhos de R$ 13 bilhões.

Dissonância

Quando a inflação declina, as taxas de juros permanecem no alto ''para não reverter o declínio dos índices de preços''. Quando a inflação aumenta, os juros devem subir ainda mais ''para espancar o consumo, encalhar o produto e segurar a carestia''.

Disparate

Quando a Selic sobe na base, os juros na ponta são rapidamente ajustados para cima ''porque subiram na base''. Quando a Selic desce na base, os juros na ponta não são rebaixados porque ''a queda na base demora muito para repercutir na ponta''.

Desconexão

Quando os preços e juros sobem é inflação. Quando eles baixam é promoção.

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup