JOELMIR BETING
''Todo investimento na economia rural é um animal caprichoso. Quando não há grades, ele fica. Quando há grades, ele foge.''
Gilberto Adrien, pecuarista
O verde está azul
Estimulado pelo câmbio fora de esquadro, o agronegócio brasileiro fecha o ano com expansão de 9% no produto, de 14% no valor e de 6% no ganho real. Como o lucro ainda é o melhor adubo da terra prenhe, essa estimativa de consultorias do ramo aponta para um novo ano-safra com avanços quantitativos e qualitativos da economia rural.
Até prova em contrário, nosso agronegócio vai trafegar ao largo das neuras e das fobias da economia em geral, aqui dentro e lá fora. Atividade de risco como nenhuma outra, a agropecuária não se amofina com a instabilidade dos mercados nem com a volatilidade das cotações as alheias e as próprias. Quem atua na área, deixa-se mover pelo chamado ''espírito de fronteira''. Cuja melhor defesa é o ataque. Sem essa paranóia montante de ''aversão ao risco'' que hoje acovarda empresas dos demais setores e nações de todos os perfis.
A economia rural vencedora é uma aposta no futuro informada pela expectativa de ganho por cima e ao largo de todos os riscos da praga, da doença, do clima, da bolsa, do banco, do câmbio, do governo. No campo, ninguém planta pessimismo.
Até porque o calendário da decisão é determinado pelas contingências físicas da natureza e não pelas conveniências táticas do mercado. Não dá para retardar o plantio nem para protelar a colheita, diferentemente do que ocorre nos mercados de bens e serviços em geral. Ou como costumava dizer o saudoso Santo Lunardelli, geneticista e pecuarista dos maiores: ''Nas lavouras e nos rebanhos, o tempo avança a uma velocidade inexorável de 60 minutos por hora.''
A gestão de risco em toda a cadeia de valor do agronegócio (que não se permite o luxo de dar margem à aversão ao risco) tem sido premiada nos países desenvolvidos (que se desenvolveram por causa disso) por um tratamento institucional diferenciado e favorecido sem ser necessariamente subsidiado. Em especial, nos tributos, nos créditos, nos seguros, nas pesquisas.
Americanos e europeus amaciam a carga tributária da panela do povo do produto primário ao alimento industrializado. Mobilizam poderosos mecanismos de crédito bancário e de seguro rural (o segundo reciclando o primeiro). E acionam bolsas e mercados a futuro, ressecuritizando os negócios de risco com tal blindagem que os produtores não raro recebem pela colheita antes do plantio. Ou simplesmente são pagos para não plantar...
E, fechando a roda, o que dizer dos subsídios ostensivos e camuflados, diretos e indiretos, embutidos nos créditos, nos tributos e nos preços? Sem contar expedientes de defesa do produto nacional contra qualquer ousadia do similar importado.
Como essa galinha choca já custa perto de US$ 1 bilhão por dia, nos dois lados do Atlântico Norte, os contribuintes ensaiam questionar o modelo, não desfrutado pelos consumidores (que são os próprios contribuintes). Tendência política que pode favorecer o planeta dos emergentes, empenhado hoje em erodir o protecionismo dos opulentos nas tratativas da OMC, com sobras para a Alca.
Secos & Molhados
Refresco
Enquanto o agronegócio faz reza brava por um alívio no garrote tributário, o sistema bancário ensaia oferecer um refresco ao arrocho creditício que já dura um quarto de século. Os bancos privados, mais o Banco do Brasil, reservam para este ano-safra 2002/2003, créditos rurais 39% maiores em relação a 2001/2002.
Migalha
Se deflacionado por um IGPM aí pela faixa de 23%, o salto é importante, mas não suficiente. Nosso PIB fecha o ano, em valor corrente, ao redor de R$ 1,6 trilhão. Logo, a nova tranche do crédito rural, recalculada para R$ 26 bilhões, não deve passar de 7% do valor adicionado do agronegócio (R$ 480 bilhões).
Jeitinho
A declarada ''aversão ao risco'' dos bancos brasileiros em relação à economia rural tem sido compensada, não é de hoje, pela desbancarização dos negócios. Os produtores são financiados diretamente pelos fornecedores dos insumos e pelos compradores das colheitas.
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