''É melhor cair das nuvens do que cair dos planos.''

Marcel Proust (1871-1922), escritor francês


As sete perguntas

Que bonito! A gente rebaixa a qualidade da dívida externa brasileira, a nosso próprio juízo, vende boa penca desses títulos reavaliados da nossa própria carteira e só no dia seguinte a gente comunica o rebaixamento do Brasil ao mercado internacional.

Dito e feito. Na segunda-feira, o JP Morgan, classificador de riscos alheios, sentado nos próprios, desfez-se de 3,5 milhões de C-Bonds do Brasil, faturando 63,4% da cotação de face. Na terça-feira, divulgado o rebaixamento de ''marketweight'' (média do mercado) para ''underweight'' (abaixo do mercado), o título brasileiro caiu para 62,5% do valor de face. Com viés de baixa.

Primeira pergunta indiscreta: será que o JP Morgan não teria avisado, por baixo dos panos verdes, na véspera do anúncio público, alguns de seus clientes preferenciais?

Segunda pergunta indiscreta: será que o JP Morgan, tribunal dos emergentes munido do martelo de pau Embi+, não deveria ser barrado, por um certo prazo, das operações de mercado com os títulos que a seu arbítrio classifica para esse mesmo mercado?

Terceira pergunta indiscreta: será que essa ''práxis'' não estaria caracterizando um caso típico de ''inside information'' (desfrute próprio de informação privilegiada)?

Quarta pergunta indiscreta: será que a próspera indústria de agências e bancos classificadores de riscos de crédito (''rating''), para sossego das velhinhas de Oklahoma e Taubaté, não estaria incorrendo no chamado ''conflito de interesses'', tal como o das auditorias provectas que juraram a fé pública nas fraudes contábeis de heráldicas corporações negociadas em bolsa?

Quinta pergunta indiscreta: que nota de ''rating'' bancos e agências vinham atribuindo à Enron e à Worldcom na véspera da eclosão do ''escândalo corporativo'' que quase colocou abaixo, lá mesmo em Wall Street, as torres virtuais da Nyse e da Nasdaq, santuário do megamercado de capitais, pé-de-meia de metade da população americana?

Sexta pergunta indiscreta: onde estavam os mercadores de ''rating'' na véspera do ''crash'' global germinado a partir do México (1994), da Ásia (1997), da Rússia (1998)? Ou ainda: em que relatório o JP Morgan alertou para o estouro da megabolha dos mercados a partir de 11 de março de 2000? Pois as perdas em bloco dos investidores não alertados, nas 33 maiores bolsas de valores do mundo, totalizavam US$ 12,8 trilhões em 30 de setembro de 2002.

Sétima pergunta indiscreta: até que ponto o mau uso do ''rating'' em causa (ou em caixa) própria não estaria configurando lances camuflados, pero no mucho, de manipulação do mercado (sem risco) no rodapé da especulação de mercado (com risco)?

Fechando a roda, fiquemos na manchete nada sutil da Gazeta Mercantil, quarta-feira: ''JP Morgan rebaixa C-Bond um dia após vender papel brasileiro''. E fica tudo por isso mesmo?

Secos & Molhados

É técnico?

Na especulação manipulada de mercado, quando não se tem problema, inventa-se problema (ou pretexto). Para o JP Morgan, a elevação do risco Brasil tem algo a ver com o recesso parlamentar... Yes, recesso em plena troca de governo. Isso retarda a gestação legiscrativa das reformas.

É tempo?

O martelo de pau do JP Morgan não rebaixava o Brasil desde julho. Ou seja: no trimestre da turbulência máxima, ignorou a bolha cambial importada e o ''pânico'' eleitoral fabricado. Amainada a primeira e enterrado o segundo, o JP Morgan rebaixa o Brasil em plena reversão positiva de indicadores internos e externos. Ah! E com o governo eleito jurando todo dia a austeridade monetária, o saneamento fiscal e a segurança jurídica dos contratos.

Como pode?

Bolha cambial, mas não crise bancária. De janeiro a setembro, os bancos ampliaram os lucros em 42% sobre o mesmo período de 2001. Os bancos estrangeiros entre nós, incluído o JP Morgan, ganharam 97% a mais. E nos Estados Unidos?

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