Para cada problema econômico, todo governo sempre tem uma solução pronta e equivocada.

Maurice Dobb (1900-1976), economista francês


Como é que é?

Combustíveis caros e curtos têm a solene vantagem de promover a redução da circulação e da poluição. Com carros estacionados na garagem do bolso zerado, tem-se menor demanda por bens e serviços, com encalhe da produção e queda da inflação. Por linhas tortas, pois, combustíveis salgados resfriam o radiador da carestia.

Palavra do presidente da Petrobrás, Francisco Gros, pensando em voz alta, em caráter pessoal. Devidamente dolarizados, os acionistas dela agradecem e soltam rojão de vara de quermesse paroquial. Francisco Gros lembra que a União Européia sobretaxa os combustíveis exatamente para mantê-los caros, inibindo o consumo e rebaixando a poluição além de comprimir a dependência ao submundo árabe, barril de petróleo misturado com barril de pólvora.

O certo é que nem tudo o que é bom para a Petrobrás tem sido bom para o Brasil. A desvalorização do real no ano, da ordem maluca de 58% em 11 meses, ampliou ainda mais a rentabilidade da empresa. Primeiro, porque os derivados sacados do petróleo nacional estão dolarizados a perder de vista qualquer que seja o nível da importação suplementar da ilustre mercadoria. Segundo, porque a balança comercial do petróleo e derivados aproxima-se do empate técnico, em valor, entre importação e exportação.

Terceiro, porque politicamente a Petrobrás lava as mãos no próprio expediente ligeirinho da dolarização: lógica pura de mercado. Afinal, como nunca antes, a estatal tem de competir no mercado, aqui dentro e lá fora. Faltaria acrescentar: por existir como ente estatal e não como agente privado, subordinado ao mercado, a Petrobrás justifica lucros soberbos em nome do patrimônio público do qual faz parte. Ela ensaia fechar o ano com ganhos de R$ 1 bilhão por mês.

Tamanho caixa tem uma segunda justificativa política: os lucros são reinvestidos na expansão do petróleo-é-nosso. Na reta de chegada da auto-suficiência nacional, ao fim e ao cabo de meio século de trabalho hercúleo, o Conselho de Administração examina uma reprogramação de investimentos para os próximos quatro anos. A empresa pretende investir US$ 29,6 bilhões no governo Lula. Média de US$ 7,4 bilhões por ano a dólar ainda não revelado.

Com duas novidades a bordo do planejamento estratégico da empresa: reduzir a recente aposta na energia termoelétrica e expandir sua presença no mercado externo. As operações diretas lá fora devem absorver 23% dos investimentos totais no período. Nas operações internas, outra variação de curso: a fatia da exploração de óleo e gás, que na década passada mobilizou até 63% da programação geral, não deve passar, doravante, de 47%. Por enquanto, nada transpira sobre o novo elo fraco da corrente: o refino.

No mais, o que se discute nos bastidores da empresa é o futuro do contrato de gestão no governo Lula. A Petrobrás vai continuar trotando com as próprias patas, por sua própria conta e risco (ou lucro), ou terá de atarraxar o cabresto e as viseiras do Planalto, agora sob um governo petista, ideologicamente intervencionista?

Secos & Molhados

Entre estatal

Estatal ungida pelas leis draconianas do mercado, a Petrobrás corre o risco de ser reconvocada para alistar-se no ''front'' da guerra nada santa contra a inflação rediviva. Preços controlados pelo governo esfriariam o apetite da inflação reindexada e quebrariam o ímpeto dos investimentos privados no setor empurrando um primeiro choque de competição para o Dia de São Nunca.

Fora do rolo

Perdas de rentabilidade operacional da empresa, por decisão palaciana (ou palocciana), derrubariam cotações em bolsa. Hipótese não descartável quando se atenta para um fato que passou lotado no ano: ganhos ou perdas da Petrobrás não mais entram na contabilidade do déficit público (das estatais em bloco). A exceção foi sugerida pelo próprio FMI.

Disparates

No mais, a Petrobrás entende que dolarizar derivados do petróleo nacional não é um disparate. Esquisito é dolarizar o açúcar de cana ou o óleo de soja, Robinhos da exportação, campeões da recarga inflacionária de 2002. Justamente ali, na panela do povo aquecida a gás liquefeito de petróleo.

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