JOELMIR BETING
''A questão está em saber, não se o Mercosul pode ser salvo, mas se ele merece ser salvo.''
Arturo Morandini, economista argentino
Naftalina no Mercosul
Diz um ditado basco que não se pode construir uma boa parede com maus tijolos. Antes, pois, de erguer a parede é preciso apurar a qualidade dos tijolos. Isso vale para a formação de blocos econômicos em processo de convergência macroeconômica, consolidada pela adoção da moeda única.
No caso do Mercosul, com Reunião de Cúpula marcada para amanhã, em Brasília, retoma-se a retórica diplomática, em portunhol, do ''relançamento'' do bloco de quatro rodas. Relançar ou reconstruir?
Os respectivos tijolos estão no bagaço. Como rememora a Cepal, é o pior ciclo de desagregação econômica (e social) da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e do Brasil pela ordem.
Na inflação, os quatro parceiros devem fechar o ano na faixa anual dos dois dígitos: 11% no Brasil, 24% no Uruguai, 32% no Paraguai e 41% na Argentina.
A desestabilização monetária agrava o quadro clínico do sistema financeiro dos vizinhos. O nosso vai bem, com bancos sólidos e líquidos. Na Argentina e no Uruguai, o sistema está a um passo da ''bankrupticy''. Os bancos argentinos acabam de sair ilesos do desmonte do ''corralito'' com aviso prévio depósitos à vista e de poupança. Mas não teriam como resistir a um desbloqueio também dos depósitos a prazo, com redolarização desses ativos.
No desempenho econômico, o Brasil ainda salva a cara e a pose, com PIB rodando abaixo de 1,5% ao ano. Mas, na parceria do bloco, o que era estagnação virou recessão e o que era recessão já virou depressão. Na Argentina, o PIB vai despencar 14% no ano, sobre um resultado negativo de -3,4% no ano passado. Vai daí que o desemprego, por metodologia equivalente a do nosso IBGE, alcança agora 23% da força nacional de trabalho (contra 7,4% aqui no Brasil).
No Uruguai, afastado do noticiário, a coisa não está menos tenebrosa. A recessão crava -8,2% no ano e o desemprego acaba de furar a barreira de 20%. A recessão não segura a inflação, que não reverte a recessão tal como ocorre na Argentina. É para o governo Lulocci pensar na cama.
Na Cúpula do Mercosul, amanhã e sexta, última exposição da diplomacia econômica de FHC, o bloco vai arredondar um acordo com a Comunidade Andina das Nações onde o Chile faz beicinho ao antigo convite para integrar o Mercosul. Única economia ajuizada do Continente (PIB de 2,1%, IPC de 3,1% e taxa básica de juros de 3,25% ao ano), o Chile entende que o Mercosul é cavalo morto. O intercâmbio intrabloco, que já estava fazendo água, despencou este ano em 57%. O negócio chileno é adestrar-se para montar o futuro azarão da Alca em acordo bilateral com o Nafta. Ou, antes, com os Estados Unidos.
Dentro do Nafta, o já ''anexado'' México, diria Lula, desfila IPC anual de 4,9%, PIB de 2,2%, desemprego de 2,9% e juro básico anualizado de 6,70%. No mais, a Alca vai ser um Nafta ampliado para toda a América Latina. Vulgo Naftalina.
Secos & Molhados
Musculação
A diplomacia econômica do PT pouco difere da orientação externa de FHC. O objetivo não muda. Talvez, o método. Lula disse em Buenos Aires, segunda-feira, que um Mercosul redivivo seria o cacife político indispensável para engrossar a voz do Brasil e dar parceria nas viscosas tratativas da Alca.
Prioridade
Há quem discorde dessa carpintaria. O cientista político mexicano Rafael Fernandez de Castro, da Brookings Institution, de Washington, disse em seminário na FGV/RJ que o governo Lula não deveria queimar vela com mau defunto: ''O certo seria relevar o Mercosul e jogar todas as fichas na negociação corpo a corpo da Alca.''
Sem tempo
Editor da revista Foreign Affairs, Rafael Fernandez de Castro suspirou fundo: ''Não se trata de preconceito nem de submissão. O Mercosul só terá força quando as quatro economias do bloco voltarem à tona. A da Argentina não estará recuperada antes de 2005 e a construção da Alca começa agora em 2003.''
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