JOELMIR BETING
''O pessimista jura que já batemos no fundo do poço. O otimista garante que dá para afundar ainda mais.''
José Maria de Jesus, biscateiro
O pior dos brasis
Primeiro: o brasileiro tem algo mais que memória da indexação de preços, contratos e salários; ele tem saudade dela. Segundo: a reindexação voluntária e festiva da economia tem como gatilho psicológico a percepção coletiva de que inflação, nos terminais do consumo, penetra na bitola de dois dígitos para o acumulado de 12 meses, em qualquer época do ano. Terceiro: pelo cheiro da brilhantina, essa barreira pode ser furada agora em dezembro.
Com as lupas no impulso de banguela da carestia, o professor Luciano Coutinho, da Unicamp, avisa que a média móvel trimestral do IPCA/IBGE, na ponta do consumo ou do varejo, já corre a 20% ao ano. Pior: a mesma média móvel do IPA/FGV, que mede a inflação na base da produção ou do atacado, já está em erupção acima de 80% ao ano.
Tradução: ou o governo Lulocci decreta a tolerância zero para a reindexação de preços, contratos e salários ou todos os brasis em revoada estarão reatando a correia de transmissão da espaventosa inflação inercial o dragão blindado que não faz distinção de mercados aquecidos ou encalhados nem de Selic de 22% ou de 55% ao ano. Ou nem mesmo de ajuste fiscal leonino.
Já vimos esse filme de horror em três décadas corridas antes do Real (ou da URV). Eis a inércia da fera: se todos os preços e contratos do presente são corrigidos pela inflação passada, a inflação futura jamais ficará abaixo da inflação passada. Pode até não subir mais, mas baixar que é bom, jamais. A inflação inercial desmoraliza tabelamentos, congelamentos, resfriamentos... e corralitos colloridos.
Sem mistério. Os usos e os abusos da correção monetária automática (indexação é correção plena da inflação cheia em dado período) forçaram o Banco Central a remover 12 dígitos da moeda nacional em apenas 30 anos com IGP-DI acumulado no período de 1,1 quatrilhão por cento.
O horror do processo está na assimetria da indexação. Ela protege governos, empresas e poupadores, mas nada faz em defesa de quem pode menos ou pouco tem cerca de 38% dos brasileiros (Pnad/IBGE). Estes vegetam nos porões da sociedade (re)indexada, sem salário em carteira (com proteção quase integral), sem aplicação financeira (com correção até maior que a inflação), sem patrimônio imobiliário (dolarizado pelo mercado), sem carro usado (igualmente dolarizado), sem futuro e sem afeto.
Assimetria igualmente nos prazos de reposição das perdas inflacionárias. Os rendimentos do trabalho formal voltariam a ser corrigidos anualmente ou semestralmente. Mas os preços e os impostos voltariam a refestelar-se com correção mensal, semanal ou diária.
Em resumo: a indexação assimétrica foi a maior responsável pela ignominiosa escalada da desigualdade social nos anos 80 e 90, já com inflação anual de três ou quatro dígitos. Foi com ela que o Brasil cor de anil conquistou a taça de chumbo da renda mais concentrada do mundo.
Secos & Molhados
Pajelança
Para os doutos distraídos que advogam uma nova puxada punitiva da Selic (de 22% para 25%), aqui vai o lembrete do professor Ricardo Carneiro, da Unicamp, publicado domingo nesta coluna: a Selic só teria algum efeito sobre 22% da atual estrutura de preços da economia. Outros 17% são inerciais, 18% são administrados pelo governo e 43% estão dolarizados pelo mercado.
Esperteza
A dolarização de preços nesta barriga cambial inflada desde maio carrega reajustes de 78% na farinha de trigo (importada) e de 86% no óleo de soja (exportada). Ou de 78% no açúcar refinado (a cana é nossa ou vem da Lapônia?). Exportar faz mal pra saúde? Para a panela do povo, deu de fazer um estrago danado.
Fome 100
A inflação não se contenta em empobrecer o pobre, linearmente. Ela deu, agora, de se alojar justamente no item alimentação com peso 34 no orçamento familiar de até 3 salários mínimos. Até porque pobre não perde a mania de querer comer. E qual é a opção para a comida? Só pode ser o Fome 100.
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