''O medo de quem navega é o medo de não partir.''

Amyr Klink, navegador


Dá para substituir?


Bens de capital na base e bens de consumo na ponta lideram o processo de substituição de importações no atual estágio da economia brasileira, espancada pela especulação cambial intermitente. Na pauta geral das compras externas, os primeiros responderam por 23% e os segundos por 15% do total. Quando? De 1995 a 2001.

A fatia do leão nas importações brasileiras é a dos chamados bens intermediários, com 62%. Nessa categoria entram matérias-primas minerais e agrícolas, petróleo e derivados, produtos químicos e petroquímicos básicos, fármacos, adubos, resinas, tintas, plásticos, não-ferrosos, material elétrico, tecidos e toda uma vasta família de peças e componentes para os ramos automotivo, eletroeletrônico e bens de informática.

A nova onda de substituição, de padrão juscelinista, não resulta de lances arquitetados de política industrial, com tarifação seletiva ou punitiva. Ela deriva da catequese de choque do câmbio flutuante, com suas bolhas de caráter meramente especulativo. Ou sem caráter.

Desde a implosão da banda cambial, janeiro de 1999, o parque industrial brasileiro vem apalpando o campo minado da substituição dos equipamentos e dos componentes importados. O atacado e o varejo dos bens de consumo igualmente movimentam-se nessa mesma linha. Nas compras, quando o câmbio perde o juízo, mercado interno e mercado externo costumam ser simplesmente excludentes ou alternativos e não mais complementares ou aditivos.

O problema é que a substituição nas fábricas, ao contrário da substituição nas lojas, constitui uma aposta de risco. Na base industrial, a decisão tem de jogar, necessariamente, com cenários de longo prazo. No comércio, não raro importações suprimidas não passam de importações reprimidas. Uma virada no câmbio e eis os similares importados voltando a deletar os produtos nacionais. Num piparote online.

O que se pergunta em cada cadeia de valor, nesta entrada de dezembro, último suspiro da Era FHC, é se o dólar vai permanecer no alto, ainda que não mais em alta. Pelo cheiro da brilhantina, a mudança de patamar, da ordem de 53% no ano, tende a permanecer por aí na travessia de 2003. Ou seja: autêntica blindagem da bolha, convertida em onda.

O próprio mercado cambial, alojado no ventre do sistema financeiro, acaba de ''precificar'' o primeiro ano do governo Lula pela mediana de R$ 2,55. Hipótese que robustece o movimento de substituição de importações. É o que já se pensa, em voz alta, nos segmentos até aqui avessos à substituição tais como os dos componentes para eletroeletrônicos e bens de informática.

Na balança comercial desses setores siameses, somados, o déficit trafega pela bitola acachapante de US$ 11 bilhões. Primeiro: não temos escala suficiente para atrair fabricantes já com excesso de capacidade instalada lá fora. Segundo: nas tecnologias de ponta, a única coisa permanente é a mudança ou a inovação.

Secos & Molhados

Patinando

Peritagem do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) revela que a substituição de importações não está com a bola cheia. O efeito câmbio é importante, mas não tem sido suficiente. As agruras internas da economia brasileira fazem o fator limitante.

Ressalvas

O trabalho do Iedi faz as devidas ressalvas para a queda de 16% nas importações de 2002. Primeiro: crescimento do PIB abaixo de 1,5% ao ano. Segundo: esgotamento do primeiro ciclo das privatizações. Terceiro: encarecimento ainda maior do capital para investimento em produção e inovação nas empresas nacionais.

Com atraso

Outro reparo pertinente: a substituição forçada ou incentivada pode dilatar nossa defasagem tecnológica. Sobretudo, na cadeia de componentes. Nos bens de capital, a Abimaq informa que a indústria nacional conseguiu elevar sua participação de mercado, este ano, de 55% para 61%. O segmento já exporta US$ 3,3%. Um terço disso, para os Estados Unidos.

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