''Quando o Nafta passar a dominar toda a América Latina, ele não deverá ser chamado de Alca, mas de Naftalina.''

Hugo Maia, artista plástico


Locomotiva reacelera

Entre mortos e feridos, escaparam todos. O pouso forçado da águia americana, em 2000, caçapa cantada desde 1997, produziu desaceleração global neste triênio 2000/2002. Mas não se configurou até agora um quadro clínico de recessão nos Estados Unidos, locomotiva da economia global. Houve crescimento perto de zero em 2001. Mas isso é estagnação e não recessão.

O que não faltou foi justamente uma baciada de eventos traumáticos para desencadear um ciclo recessivo de longa duração. O maior deles foi a implosão das torres virtuais da megabolha de Wall Street (Nyse e Nasdaq), desde 11 de março de 2000.

Em segundo, a destruição terrorista das torres gêmeas do WTC, ali mesmo em Wall Street, em 11 de setembro de 2001. Em terceiro, um acidente moral de percurso na eclosão das fraudes contábeis de 2001/2002.

Na implosão da megabolha do capitalismo especulativo, vulgo ''irrational exuberance'', as 33 maiores bolsas de valores do mundo perderam, em bloco, de março de 2000 a setembro de 2002, um valor de mercado da ordem telúrica de US$ 11,8 trilhões. Uma subtração aparentemente catastrófica para o chamado ''Efeito Riqueza'', reator da prosperidade americana na década passada.

Como é sabido, o capitalismo opulento, tocado mais por sócios do que por credores, não abre mão da democratização do capital corporativo. Metade das famílias americanas tem pé-de-meia em ações e fundos de ações.

Ou seja: um ''crash'' de bolsa, ainda que destruindo a gordura dos ativos sem atingir a carne do sistema, retira de campo um vasto potencial (ou intenção) de consumo. E o consumo de ponta, na sociedade americana, movimenta 72% do PIB de US$ 10 trilhões.

Pois aí está a águia, outra vez, batendo as asas. A variação trimestral anualizada do PIB deixa embasbacados os arautos da ''falência do modelo'' nesta que foi a quarta morte anunciada do capitalismo no pós-guerra. No terceiro trimestre, o PIB americano cresceu 4% ao ano. Ele já havia exibido a musculatura no primeiro trimestre com expansão anualizada de 5%.

Sem mistério. Pela ponta da demanda agregada, dá-se desde agosto a reversão do índice de confiança dos consumidores (Conference Board), subindo para 84,1 pontos agora em novembro. Para quatro em cada cinco americanos, o pior já passou para o bolso deles de cada dia.

Pela base da macroeconomia, aposta-se em retomada lenta, porém firme. Não se imagina um PIB gregoriano acima de 3% para 2003. Estima-se para o primeiro semestre uma variação trimestral anualizada pela média de 2,8%, segundo a Associação Nacional de Economia Empresarial.

A reaceleração da locomotiva terá de contar com a boa resposta dos vagões de rodas quadradas da União Européia e do Japão - este, sim, em pegajosa recessão.

Secos & Molhados

Face oculta

Há uma energia oculta ou intangível na resistência da economia americana: os ganhos continuados de produtividade das empresas. Esse avanço qualitativo ainda não tem métrica adequada no cálculo do PIB, mas tem tudo a ver com a atual reaceleração da locomotiva. Investimentos pesados em inovação e competitividade ainda estão em fase de colheita neste triênio 2001/2003.

Um estouro

Informa o Departamento do Trabalho que a produtividade média dos trabalhadores da indústria e dos serviços, que havia crescido 3,6% ao ano no ''boom'' de 1995/99, aumentou 5,3% em 2001 e ensaia fechar 2002 com expansão de 4%. Pode?

Duplo efeito

Os ganhos de produtividade têm a ver tanto com a inovação tecnológica (e de gestão) como com o traumático enxugamento do pessoal quando o ciclo do oba-oba adernou para o ciclo do epa-epa. Uma oferta de novos empregos vai ter de aguardar por uma expansão sustentável dos negócios em geral.

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