JOELMIR BETING
''Os bancos brasileiros estão sólidos e líquidos dentro de mercados absolutamente gasosos.''
José Maria de Jesus, correntista
Eles têm a força
Durmam tranquilos. Nossos bancos estão nos eixos e nos lucros. Não há crise bancária no Brasil ao contrário do que hoje ocorre em meio mundo, da Argentina à Turquia, passando pela Alemanha ou pelo Japão. O sistema financeiro nacional não integra a cesta do risco Brasil, tanque de gás da bolha cambial.
Reestruturados antes das crises globais desencadeadas a partir de 1997, os bancos brasileiros saíram ilesos nas duras provações de sete contágios de alto risco: 1) abalos da Ásia (1997) e da Rússia (1998), 2) ruptura forçada da banca cambial (1999), 3) estouro da megabolha global (2000), 4) desaceleração mundial (2000/2001), 5) colapso ainda sem reversão da Argentina (2001/2002), 6) atentados terroristas em Wall Street (setembro 2001), 7) aversão ao risco com especulação cambial no Brasil (2002).
A reestruturação do setor bancário começou pela transição melindrosa da moeda veloz (cruzeiro indexado) para a moeda quase estável (real). Os ganhos inflacionários do ''floating'' bancário baixaram a crista de 2% ao dia para 2% ao ano.
O saneamento sistêmico deu-se em três frentes: a dos bancos privados, a dos bancos estaduais e a dos bancos federais. Nessa operação trifásica, concluída em 2000, o Tesouro Nacional empenhou recursos sem retorno da ordem de 2,4% do PIB. No Chile, depuração semelhante consumiu 11% do PIB. Nos Estados Unidos, 5,4%. No Japão, tarefa ainda por fazer, a coisa ensaia ficar acima de 15% do obeso PIB nipônico.
O histórico detalhado da reestruturação bancária no Brasil desfila, esta semana, no Relatório de Estabilidade Financeira, montado pelo Banco Central. Na apresentação do documento, o presidente do BC, Armínio Fraga, encheu o peito: ''A reestruturação está consolidada. Temos hoje um sistema bancário saudável. Ele acaba de atravessar turbulências diversas com desempenho nota 10. Tanto assim que o poupador brasileiro não perdeu uma única noite de sono.''
Padrão elevado de segurança operacional e índice invejável de capitalização fazem o cartão de visita dos 137 bancos brasileiros radiografados no relatório. Armínio Fraga grifou o detalhe: nossos bancos estão com o dobro de capital próprio para o lastro mínimo de seus ativos totais. O Comitê de Basiléia exige no mínimo 8% de capital próprio - média global deste ano. O Brasil, prudentemente, adotou o lastro de 11%. Pois, na média dos bancos nacionais, essa garantia tem ficado ao redor de 16%.
Armínio Fraga cacarejou outros ovos do setor: 1) ativos totais em expansão contínua e sustentável, 2) tendência declinante dos custos operacionais, 3) estabilização do índice médio de inadimplência (7,9%) em clima de sufoco geral da fiel clientela.
No total dos cem maiores devedores (ou mutuários), a fatia das empresas de energia no débito total de R$ 82,4 bilhões era de 13,1% em junho. A das teles, de 11,6%.
Secos & Molhados
No azulão
No primeiro semestre deste ano, dados consolidados, os bancos lucraram em bloco R$ 9,8 bilhões. Dos quais um terço por obra e graça das operações cambiais (ainda antes da formação da megabolha no terceiro trimestre). Tarifas de serviços e spreads de créditos completaram a festança.
Pelo mundo
Créditos podres do setor, em todo o mundo, ensaiam furar a barreira dos US$ 900 bilhões, cerca de 20% acima do calote global de 2001. Mas ainda dentro da blindagem das previsões de segurança do acordo de Basiléia firmado em 1988. Haverá revisão desse pacto para 2006.
No seguro
A sofisticação dos derivativos de crédito, já da ordem de US$ 2 trilhões, coloca a massa dos empréstimos em regime de securitização dentro do próprio sistema financeiro. Isso promove a diluição ou compartilhamento de riscos, afastando o perigo de uma crise sistêmica no mercado global. A atual febre de ''aversão ao risco'' também eleva a seletividade dos empréstimos.
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