JOELMIR BETING
''Todo plano de governo é suspeito. Ainda que seja plano para melhor.''
Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês
Volta do pé-de-boi
O carro popular verdadeiro tem seis rodas, motorista particular contratado e hospeda até meia centena de passageiros. É o ônibus do transporte público urbano. São 118 mil circulando em todo o Brasil - em cidades com mais de 30 mil habitantes. Esse inventário oficial, da ANTP, não leva em conta dois subprodutos de desfrute popular: o ônibus pirata e as peruas regulares e/ou clandestinas.
Sem ter como dar um choque de qualidade (e quantidade) no transporte coletivo de passageiros sobre pneus e sobre trilhos, o Brasil volta a discutir a conveniência de reabilitar a tacada itamariana do carro dito popular, movido a incentivos fiscais até aqui negados ao ônibus (com suas tarifas cheias cada vez mais pesadas).
Mas, vamos lá. O governo Lula, ainda esquentando o radiador, adianta que vai ''rever o conceito'' do carro popular pero no mucho. A idéia motriz é trocar a motorização até 1.0 por versões pé-de-boi de modelos de qualquer cilindrada. Para versões básicas, quase em bruto, haveria tratamento fiscal diferenciado e favorecido, com sobras para linhas incrementadas de financiamento bancário. Não seria carro popular-padrão. Pensa-se em versão popular de qualquer modelo.
Na percepção dos peritos do partido, egressos da poderosa célula metalúrgica da CUT, o modelo 1.0 virou um luxo no calibre da potência limitada. Há versões sofisticadas com ''opcionais de série'' dignos de carro médio. E o modelo enxuto mais barato (ou menos caro), o Uno Mille, desfila preço de tabela de R$ 14 mil.
Barato, talvez, em dólar rodando a R$ 3,55. Mas ainda muito caro se cotado em moeda SM. Sim, o carro zero-quilômetro mais barato do Brasil não sai hoje por menos de 70 salários mínimos. Redondão.
E pensar que o modelo mais popular de 1980, o Fusca básico, preferência nacional, não passava de 48 salários mínimos.
O consolo dos brasileiros ainda a pé é que, em novembro de 1986, tempo do Cruzado 2, o carro mais barato, então o Chevette básico, chegou a valer 136 salários mínimos. Não era para menos.
Havia, na época, por sobre uma cunha fiscal já estapafúrdia de 72% do preço final, um confisco tributário de 30%, disfarçado de empréstimo compulsório (no carro zero-quilômetro e no tanque cheio). Tungada da qual não fomos ressarcidos até hoje.
Cotado para comandar a futura plataforma de câmaras setoriais do governo Lula, o sindicalista Luís Marinho, presidente licenciado do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, lembra que uma recauchutada geral do setor automotivo (há mil dias andando de lado) terá de desengavetar, entre outros expedientes, o do programa de renovação incentivada da frota sucateada. Agitado em 1997, o assunto saiu para o acostamento de um ''conflito de interesses'' detectado no embrião de um mercado cativo de vistoria mecânica autorizada.
Vistoria de cobertura nacional cobiçada por gigantes mundiais do ramo. Já pensaram no tamanho e no conteúdo dessa encrenca?
Secos & Molhados
Confisco
A carga tributária das montadoras, no conceito do valor adicionado, trafega pela faixa de 43%. Lá fora, a coisa transita abaixo de 20% ou mesmo de 10%. Dado o efeito multiplicador de um produto tipicamente de montagem na produção e de refertilização de impostos, encargos, licenças, pedágios e multas na utilização, o mundo lá fora prefere tributar menos sobre cada vez mais...
Extorsão
Em se tratando de um produto de alto valor unitário (o automóvel só perde para o imóvel), para um mercado interno com renda média de 4,3 SM, o mercado não pode abrir mão de um padrão de financiamento civilizado. Não é o que ocorre entre nós. O crédito e o leasing são proibitivos. Ou extorsivos.
Pela metade
Quase duas dezenas de montadoras estão equipadas para 3,2 milhões de veículos de todos os tipos por ano. A produção anual não tem passado de 1,6 a 1,8 milhão (incluída a exportação). Bem abaixo do recorde de 2,1 milhões, em 1997.
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