''É evidente a incompatibilidade entre câmbio flutuante e inflação baixa. O sistema brasileiro de metas inflacionárias é um solene fracasso.''

Paul Singer, economista



O dragão cambial


Com valorização de 54% no ano, aqui na ponta de novembro, o dólar deve continuar no alto, ainda que não mais em alta. Dívidas do setor público (interna) e do setor privado (externa), atreladas à variação cambial, com vencimentos em dezembro, podem totalizar US$ 13,5 bilhões. Na dívida pública, entre pagar e rolar, o Banco Central prefere rolar se o mercado topar.

É bom lembrar que os principais credores, aqui dentro e lá fora, são os principais atores do mercado cambial. Eles têm massa crítica para sustentar a cotação diária do dólar acima de US$ 3,50. Sim, por tempo indeterminado. Parece já estar convencionado ''precificar'' o piso cambial do ano que vem, o do Lula lá, em R$ 3,50.

Que o diga a sondagem semanal de mercado produzida pelo próprio Banco Central, a do relatório ''Focus'', divulgado ontem. Os 100 maiores bancos comerciais e consultorias financeiras projetam dólar a R$ 3,50 para o último dia útil de 2002. E apontam para a ponta de dezembro de 2003 o dólar cotado a R$ 3,60.

Esse par de números carrega duas notícias. A boa notícia: o dólar não vai subir mais. A má notícia: baixar que é bom, jamais. O que levou o professor Paul Singer, da FEA/USP, na edição de ontem do jornal Valor, a chutar o pau da barraca cambial: ou se restabelece alguma disciplina para o câmbio ou se ressuscita algum controle para os preços atrelados ao câmbio.

Já que o professor Paul Singer é um dos consultores econômicos do PT, leia-se nas entrelinhas do último parágrafo do seu artigo: ''O dragão velho de guerra parece que está de volta. Mas, para enfrentá-lo, a recessão não é a única alternativa. É possível implementar reformas que deixem o mercado cambial menos instável e que submetam os preços a negociações entre elos das cadeias produtivas, arbitradas pelo governo, para viabilizar o aumento da produção e do emprego sem sacrificar o consumidor.''

Reformas que estabilizem o câmbio? Isso leva tempo. Até porque o câmbio é bolsa e a bolsa não é técnica. Ou como define o próprio Singer: ''O mercado financeiro é uma arena de apostas num futuro desconhecido, mas em que vale, a cada momento, não o futuro que verdadeiramente ocorrerá, mas a opinião prevalecente sobre ele.''

Tradução: o mercado é especulativo e a especulação costuma ser manipulada ''ao sabor de fatos ou de boatos de seus próprios agentes''. Manipulação não dá liga com rationale econômica.

A proposta de negociação pactuada de preços ao longo de cada cadeia produtiva (sob arbitragem do governo) seria a reencarnação das câmaras setoriais, já admitida por lideranças do PT. Para variar, a primeira delas seria a do setor automobilístico. E a da comida?

Pelo sim, pelo não, as câmaras setoriais teriam maior musculação que o atual regime de metas inflacionárias para recolocar o dragão na jaula, conclui Paul Singer (e-mail: [email protected]).

Secos & Molhados

Incompatíveis?

Paul Singer diz que câmbio flutuante não combina com inflação baixa e produz fissuras letais na confiabilidade das metas inflacionárias. Um sistema que, entre nós, segundo ele, já fracassou. Ocorre que temos dezenas de países com inflação anual de um dígito surfando as ondas turvas da flutuação cambial.

Fracassou?

Há quem diga que o sistema de metas, bem ao contrário, está funcionando no rodapé da bolha cambial. Seguinte: enquanto os custos de produção, impactados diretamente pelo câmbio, ensaiam fechar o ano acima de 25% (IPA), os preços de varejo, no período, podem permanecer abaixo de 10% (IPCA). As metas estão abortando o IPA no ventre do IPCA.

Blindagem

Defensores do sistema de metas entendem que, sem elas, o IPCA já estaria na casa dos dois dígitos desde a implosão da banda cambial em janeiro de 1999. O que teria desencadeado o pior dos efeitos: o da reindexação cascateira de todos os preços e contratos da economia, reinstalando a correia de transmissão da aidética inflação inercial.

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